Terapia



Sabe o que é, Doutor: eu não tenho nada. Não sou doente não. Minha esposa me mandou aqui. Disse ter ligado pra secretária na terça, não, na quinta, sei lá, mas não tenho nada pra falar. Não gosto muito de silêncio, se é que me entende. Nem tenho tempo pra isso; no banco é uma correria: caixa, conta, porta giratória – é tudo uma loucura. Tenho cara de louco? Então, Doutor, não é pra eu estar aqui, não senhor. Ademais, não me agrada a ideia de ficar falando sozinho. Se o senhor quiser saber da minha história, podemos muito bem marcar uma cervejinha no bar do Jair, logo ali, em cima da Igreja, sexta-feira seria ótimo. E esse jeito de conversar deitado, olhando pro teto? Quem inventou? É pra ficar reparando que o ventilador está sujo? Estranho né, Doutor, quando eu era novo costumava reparar nas coisas; agora velho, com a vista cansada, tudo parece tão igual. Minha esposa, a Ruth, vive reclamando que não reparo nela; no cabelo, na unha, na roupa. A coitada também me vem falar da vida na hora do Jornal, ou atrasa e bate com o maldito horário do jogo, puta que pariu, né Doutor, tanta coisa pra preocupar: o goleiro do meu time, a dor nas costas, o caixa no banco, e a Ruth vem me alugar justo na hora errada. Eu reparo nela sim, sei até o dia que ela vai à missa, é sempre no Domingo, Doutor. A gente até deita junto, mas eu durmo primeiro. Ela não gosta, fica brava, diz que faz questão de conversar, que é a única hora do dia que a gente tem, que de manhã é uma correria maluca pra levar os moleques pra escola. Puta que pariu, né Doutor, fico o dia inteiro naquele inferno, já até perdi dinheiro, e a vista cansada, a dor nas costas, o goleiro do meu time, e a Ruth me cobrando que eu não reparo nela, que eu durmo primeiro e que eu não levo os moleques pra escola. Já fiz muito isso, Doutor. Quando a gente casou, eu fazia o café e até buscava o pão. Mas hoje, com essa dor nas costas... O gerente do banco ta me cobrando, fica falando pra eu ficar de cara boa com os clientes porque é a nova política da empresa. Puta que pariu, política da empresa, manda o empresário vir contar dinheiro no meu lugar então. Já te disse que perdi dinheiro esses dias? Não dá, Doutor, a vista ta cansada. A propósito, já comecei a falar, o senhor não vai dizer nada? O que quer saber agora? Dos meus filhos? Já te disse que tenho filhos? Me estouram a paciência, fico puto. Uma desorganização, um descaso com a vida. Na idade deles eu já trabalhava, e ai de falar alto com alguém, tomava um tapa na boca. Mas são bonzinhos, os dois. Pelo menos não usam drogas. Filho viciado eu não aceito. O filho do Vitor, por exemplo, é um puta maconheiro – já até falei pro meu mais velho ficar longe. Educação moderna é difícil, se é que o senhor me entende. A escola mete tanto o bico que to quase entregando o mais novo pra ela cuidar. Te falei que sou casado mesmo? No papel? A Ruth é gente fina, mas não sei, não tenho mais tanto tesão, sabe Doutor. O sexo não é dos piores, mas também não faço tanta questão. Fazer amor é bom, todo mundo sabe. Mas parece companheira, amiga, sei lá. Fico meio sem graça de pedir pra ela fazer algumas coisas. Não a traio não. Mas meu olho não tem dono, se é que o senhor me entende. Não posso ver a filha do Seu Tomás da padaria que fico louco, Doutor. A menina é uma delícia. Mas não traio ela não, tadinha, imagina a Ruth, ia ficar triste demais. A Ruth esses dias deu pra falar da minha barriga, como se a dela também não tivesse crescido. Veja só, com essa dor nas costas, essa vista cansada, esses dois moleques, se eu não tomar uma cerveja no fim do dia, prefiro morrer de vez. Não tem jeito, Doutor. Estou cansado. Sinto sono o dia inteirinho. De vez em quando vou ao banheiro do banco, tranco a porta, sento na privada e tiro um cochilo. Ninguém vê, pensam que estou cagando. Não dá, Doutor, é muito sono mesmo. Minha esposa até me deu vitamina pra tomar, mas eu esqueço. Tanta coisa pra lembrar, conta de água, luz, telefone, puta que pariu. Bonito o ventilador do Senhor, já consegui reparar, é de bronze né? Se minha esposa visse, ia querer um igualzinho, haja dinheiro. Sabe, Doutor, o meu pescoço ta doendo de ficar deitado assim, vou levantar, acho que já deu, fiquei até sem graça, só eu falei, mas foi bom, Doutor, não doeu nada, com 55 anos, confesso, foi pior fazer o exame da próstata. Olha, conheci o senhor agora, mas hoje é sexta, sabe como é, tem um joelho de porco e um copo de cerveja me esperando, ali em cima da igreja, no bar do Jair, e já é tarde, não posso atrasar, o Roberto e o Armando já pediram até outra mesa, vamos comigo, Doutor, a gente passa em frente à padaria e eu te mostro a filha do Seu Tomás, uma delícia.

A hora e a vez de João da Espera


(...) 

E de repente a vida soltou as rédeas. Fruto de um parto prematuro, ele se deixou levar pelo vento. Alimentou-se na estufa da esquina e se esqueceu de tomar vitaminas. Caminhou sozinho. Cruzamentos, viadutos, becos; o destino até parece um labirinto. Um dia, no ponto de ônibus, como que à sua espera, encontrou alguém. A pessoa, então desconhecida, lhe disse coisas que nunca havia escutado. Num ímpeto, decidiu levá-la consigo. Caminhou acompanhado. Os cruzamentos, viadutos e becos, pareciam diferentes. Pelo nascimento antecipado que tivera, passou a ter os sentidos comprometidos. O que parecia sinestesia era deficiência. Até pensou em pedir à pessoa para quem dava as mãos que lhe dissesse o real cheiro do Centro ou as cores do semáforo. Saber quando ir sempre foi, para ele, coisa das mais importantes. O verde e o vermelho têm um quê metafísico, instintivo. Em dias tristes, quando nada o esperava, não se importava em aguardar os segundos procrastinadores do sinal rubro. Se o outro dava às caras, não notava e chamavam-no de lento. De maneira semelhante acontecia nos dias de chuva – a consciência se afogava no café e a audição não era capaz de distinguir um choro, de um riso. Uma distração lhe fazia esquecer agora das datas. Lembrava-se de que tinha uma pessoa, mas se confundia quanto a ela. Sabia que gostava. Bastante. Com ela, até aprendeu a falar. Mas demasiado distante de alcançar qualquer solução. Sua inteligência era dotada de uma vontade morta, uma paisagem sôfrega. Devo ter mencionado que o sujeito dormia n’uma estalagem; acostumara-se com o silêncio. Acostumara-se com pouca gente. Tão díspare. A poucos metros do portão de ferro enferrujado que delimitava o espaço em que dormia, uma multidão marcava passos e compromissos. Gritavam-no; principalmente na madrugada. Vândalos e adolescentes invadiam a estalagem a fim de valerem-se de transas e ópio. Fingia que não escutava; desejava que sua pessoa estivesse consigo também à noite. Inclinava levemente a cabeça em busca de uma posição confortável de descanso; em vão. Tinha um charme tosco, um tom de pena, como um corcunda de Notredame contemporâneo. A história trocou a catedral por um galpão. A impotência de calar-se ante o mundo, de viver sempre à espera, de desconhecer quem o possuía, fez com que o homem adquirisse impaciência. Passou a orar por um dilúvio – um desastre poderia arrancar de maneira atroz as telhas da estalagem – e se tivesse sorte, quem sabe um raio o atingisse. Não tinha princípios, mas uma ternura que lhe roubava qualquer tipo de malícia. Nada que lhe tirasse a desconfiança. Nos sábados gostava de caminhar com a pessoa querida pelos mesmos cruzamentos, viadutos e becos. Passavam também pelo mesmo ponto de ônibus, esperando encontrar outra pessoa que se somasse à solidão. Para uma vida tão despercebida, inútil é que eu repita a rotina deste sujeito – percebe-se, de praxe, que uma novidade aqui seria tão improvável quanto a ebulição de um vulcão adormecido. Ocorre que um dia, num raio do destino, João da Espera decidiu voltar a caminhar sozinho. Atravessou o perímetro da estalagem, desviou das tralhas que ocupavam o seu caminho e, de súbito, sentiu a sensação de que nada o traria de volta. Não levou nada – documento não tinha, tampouco alimento em mãos. Passou a ouvir comandos e conseguiu enxergar o azul do céu. No primeiro cruzamento, um carro parou para que atravessasse. No beco, admirou um grafite que destacava o desenho de um homem que se parecia com ele. Foi até a esquina; o semáforo estava verde. Passou a pé sem pensar, como se suas pernas tivessem correntes, e o abdômen, um motor. Desta vez algo o esperava. Só teve o impulso freado quando parou em frente ao ponto de ônibus. Por um motivo que desconhecia, entrou no coletivo que parou ao sinal de uma senhora. O pouco trocado que tinha bastou para que pagasse a passagem. Sentou sem pensar. Com o rosto colado à janela do ônibus viu a cidade passar no caminho. O céu azul deu lugar a um negrume de nuvens que se acumularam como um tufão. A chuva que chegara aumentava gradativamente à medida que João da Espera se afastava da paisagem local. Um dilúvio caiu na cidade da luz. Os carros foram abandonados no meio da rua e o concreto das casas foi descoberto pelo vento que acometeu as telhas e calhas. Um raio caiu na estalagem. Em face da distância, o ônibus seguiu. Nunca mais viram João da Espera. Saber quando ir sempre foi, para ele, coisa das mais importantes. O destino até parece um labirinto.

Tato

Tenho estado vulnerável. Aquém do meu poder de resistir ou extrapolar os limites. Talvez mais sábio em decorrência disso. Percebi a maturidade quando reconheci a fraqueza – e não faltam nessa vida coisas que nos suguem as forças. Mas com tanto ópio, vitrine e sinal verde, fui perder minha resistência logo em você. Com tanta nicotina no mundo, whisky sem gelo e carro importado, o meu poder foi se perder nos seus braços. Li-te-ral-men-te nos seus braços. E não há ser humano nessa terra que me convença do contrário; não há gente que me dane afirmando que, “não, os braços são menos importantes que os seios, o nariz e a boca”. Não há tom blasé que me passe a perna. Pois afirmo num petardo, sem hesitar: sou um apaixonado por teus braços. 

Apesar de preencher os requisitos da receita de Vinícius, não foram os pescoços longos, as saboneteiras, nem os olhos de certa maldade inocente que me fizeram ultrapassar a impressão de você – mas os braços. E dos cinco sentidos que restam a um pobre corpo humano, foi justamente o mais despercebido que me enfraqueceu: o tato. Pele com pele. Que me desculpem o olfato e a audição, mas o tato é fundamental. Explico o motivo: carinho. Carinho no braço.  Só o tato faz carinho. Entendo a dificuldade de estabelecer uma hierarquia entre os sentidos – não me imagino vivendo sem algum. Se eu fosse cego, surdo ou mudo, certamente seria o pior deles. 

Ocorre que quando estamos juntos, frente à tela de um filme, de ouvidos à cena dramática, minha atenção aguardando o curioso desenlace da história, é justamente nessa hora, que você descobre o meu braço – com o seu braço. Aí eu perco o foco; e não há filme do Almodóvar que me faça ler as legendas. Não há cena do Woody Allen que me tome à impressão. Não há tiro do Tarantino que chegue aos meus ouvidos. Seus dedos caminham com calma a distância de um continente, que não é nada mais do que o perímetro que vai do meu ombro à minha mão. Tocam as minhas veias em movimentos elípticos e as unhas eventualmente pressionam o antebraço com a paciência de uma canoa. Já mencionei que perco o foco. Tento, em vão, fingir que não percebo; tento buscar outra fotografia com a lente da minha íris. À toa. Minha cabeça deita. Olho pros nossos braços. Juntos. Busco um prédio na janela, uma chuva ou luz acesa. Você fala comigo; não escuto. Sou um eterno distraído. Um quase surdo. Um quase cego. Um completo mudo. Minha capacidade de proferir algo é assaltada. O carinho é o ladrão dos sentidos.


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Dos males, o menor.

carência 

s. f.
1. Falta do que é preciso.
2. Necessidade.
3. Privação.


Quando entrei no orfanato, no último sábado, dei de cara com um garoto que caminhava de ponta cabeça. Suas mãos tomavam o lugar dos pés num petardo que só a arte da bananeira é capaz de conseguir. Me apresentei; ele também. Fui indagado sobre o porquê do meu nariz pintado e do chapéu que carregava um sino nas extremidades. De pronto eu disse que estava lá para brincar e, num repente, outras crianças chegaram. Muitas delas – loiras, morenas, negras e até com pinta oriental. Minha criatividade para inventar algo que entretesse os garotos foi sucumbida. Não consegui ir muito além do controle de bexigas e dos desenhos mal-feitos, o que me fez apelar para o violão.

O instrumento foi como uma lâmpada mágica – garotas e moleques dispersos se enfileiraram a fim de obter uma foto de pôster, com óculos escuros e violão nos braços. Pediram músicas – que eu não sabia tocar. Não parecia importante que eu soubesse, desde que fizesse soar das cordas qualquer barulho com som de novidade. A timidez passou e as informações começaram a ser trocadas. Apareceram outros voluntários com criatividade à flor da pele e peguei emprestada uma ou outra brincadeira para descontrair o ambiente. As horas passaram e fui embora numa chuva de conclusões delineadas por dúvidas e gratidão.

Hoje fui ao asilo. Nada de bananeira. As pernas de quem eu encontrei cederam seu espaço às cadeiras de rodas. Andadores ritmavam lentamente o passo de dezenas dos idosos que fitei. A entrada é marcada por um jardim de roseiras e um sino colocado ao alto de um crucifixo. O local se divide em longos corredores que dão ao cenário um caráter místico de labirinto. Quartos e mais quartos identificados por números e nomes, catalisam o asilo, cedendo aos residentes um repouso digno, porém simples. Muito simples; de uma simplicidade capaz de questionar a legitimidade do que é, de fato, digno.

Caminhei mais um pouco e fitei os anciãos. O caminho foi marcado por cumprimentos e conversas ligeiras sobre o almoço que tiveram e a chuva que estava para cair. O clima sempre é um assunto. Quando percebia maior receptividade, parava para alongar o papo.

A primeira me contou do tempo que já estava lá, do aniversário que acabara de fazer e do pino colocado em seu joelho direito. Angelina é de uma simpatia capaz de pegar emprestado o charme e o sobrenome da atriz homônima; tem pinta de Jolie.

O segundo a me contar mais que o habitual papo-rápido foi um senhor que julga ler as mãos e desvendar o futuro. Quanto ameacei esticar a minha até ele, fui avisado: a previsão custa 50 reais. Deixei quieto e botei minha sorte nas contas do destino, sem duvidar da capacidade médium do senhor.

Conheci também um velho com uma imensa bagagem de histórias sobre sua vida em São Paulo – muitos dos velhos deste asilo são de São Paulo. Escutei contos que iam do pasto ao puteiro; histórias de sexo capazes de dar inveja às letras do velho safado Bukowski. Brinquei que vou levá-lo à zona antes que ele morra; ele riu e disse que irá cobrar.

Um coral e três palhaços se juntaram a nós para dinamizar o duro fardo de quem não espera mais nada deste mundo. Ao longo da música, lágrimas e risos ecoaram no local, provando que nunca se é velho demais para chorar.

Quando se visita um ambiente de pessoas carentes a interrogativa é inevitável. Qualquer um, por mais relapso que seja, vira perspicaz entrevistador. O cenário se torna uma chuva de perguntas curiosas sobre as conquistas do passado e as expectativas do futuro. É prazeroso aprender com questões e respostas.

Pra quem perdeu uma avó há pouco tempo, uma visita ao asilo é um soco no estômago. Minha garganta deu um nó. Sabe-se lá as razões de um abandono. Escutei frases que iam de ditados a filosofias originais, que poderiam ter sido proferidas por Jean Paul Sartre ou pelo velho pipoqueiro da praça que perdeu os filhos.

Quase todos os quartos são marcados por altares, numa fartura de santos com potencial de fazer do local um quase-templo – não fosse pela ausência de milagres. Os idosos do asilo sabem a data exata de quando entraram. A vontade de sair do retiro é quase unanimidade.

Os males se camuflam com o tempo; só mudam de forma. Na infância um braço quebrado é motivo de revolta. Na adolescência, uma espinha é razão para suicídio. Na vida adulta, não há nada pior que dívidas. No fim da vida, o Alzheimer amacia o peito com um tapa de luva e o Parkinson marca o corpo feito um ferro quente.

Despedir-se das pessoas carentes é sempre uma tarefa difícil. Sempre há lágrimas de um dos lados da corrente e o medo da solidão volta ao presente como um pesadelo indeclinável. É preciso ceder tempo, ceder espaço. Doar. A carência é o pior dos males. A carência é a sede da alma.

Banho de água fria

Não desprezar as escolhas que vêm do nada. Não subestimar as decisões que aparecem sem pedir licença. As melhores coisas da vida não têm gosto conhecido. A surpresa não dá tempo à ansiedade. Deixar correr a sensação do inédito; o minuto seguinte é um curta a ser filmado. Não parar, não negar, não calar. Caminhar contra o tempo na calçada do destino – o granizo é um afago que ainda não foi encontrado. Haverá sempre uma dúvida. Haverá sempre um vidro fosco. Nunca se sabe do amargo do tinto ou do fel do incolor. O amanhã é o fim do mundo.

Ato de fim de semana

(...)

Téo já previra o que iria acontecer, no momento em que deitou a cabeça na pedra. Observava o céu e as nuvens com uma densa dúvida sobre quem se movia mais rápido. Frente aos seus olhos, uma linha divisória destacava o azul, lado a lado com as espumas de vapor que mais pareciam às barbas de um velho – Deus, quem sabe. O contraste das cores fez com que se lembrasse do Rio Negro e do Solimões. Por pensar em rios, recordou também o Tejo, memória esta que o levou a Portugal – país onde nunca havia estado antes. Nesse meio tempo, concluiu que o lirismo é português.

Como é belo o milagre da intuição. Despertamos e nem reparamos que o compasso do peito é o que dita como vai ser o dia. A falta de ar que Téo sentia poderia servir – para os mais perspicazes – como pista para a decepção que teria em breve.  Criar expectativa é financiar felicidade – lembrou-se. O presente foi tomado por uma dicotomia razão-paixão, que de tão ácida, foi encarada como desilusão. Uma desilusão amorosa que não tratava de amor, mas de paixão – o que não exclui a possibilidade do afeto unilateral.

Téo se levantou e caminhou até o quarto, naquela velha necessidade de sepultar as perguntas com respostas. Gaia lia Woolf, sentada de pernas cruzadas como fazem os hindus. Fitou-a. Ela não levou mais que um instante para perceber e interrogar o desespero do homem.

- O que houve?
- Nada, ainda.
- Você fala como se descobrisse o fim do mundo. Se nada aconteceu, não há motivos para desapontamentos.
- Tu não entendes, Gaia. O problema é justamente que nada aconteceu. Cada vez que abandono as rédeas da minha vida em prol do destino, caio do cavalo.
- Está mal por ontem?
- Não encarei de todo o mal as coisas que se passaram. A verdade é que a nossa percepção do momento é um tanto destorcida e a gente acaba se perdendo. De repente, já tomamos partido e voltar atrás em algumas coisas acaba se tornando uma difícil tarefa.
- As expectativas comerão sua alma, Téo.

Sobre outras perdas e Elegias

Quem visse a cena de fora com certeza daria risada – na certa encararia como brincadeira o que aquela senhora estava fazendo, rezando pai-nosso e ave-maria com o megafone do neto em mãos. Megafone, que, diga-se de passagem, estava com o volume no máximo. O instrumento que já foi utilizado por policiais e estudantes, revolucionários da direita e da esquerda, estava ineditamente sendo utilizado como meio para propagar as orações católicas de uma senhora dotada de fé, netos e bisnetos.

O momento em que se passou a dita cena foi na última ceia de natal. Toda a família presente naquele clima que só o Dezembro ocidental pode proporcionar: primos bêbados, tios bêbados, crianças comparando presentes e mulheres empanturradas de comida pela ceia que foi posta à mesa.

Após as orações triviais a senhorinha arriscou uma reza em línguas, que misturada ao eco do instrumento em mãos e a descontração do clima, acabou por se tornar algo ligeiramente caricato, fazendo com que todos segurassem o riso. Olharam-se os netos, os tios e até os cães, esperando o final da oração para que pudessem servir a comida posta à mesa. Quando ninguém aguardava mais nada da boca da avó, eis que surge um breve “Atacar(!)” proferido por ela. Ninguém segurou o riso – netos, genros e derivados gargalharam e a velha levou a pérola na brincadeira.

Foi um bom natal pra uma família que recentemente vivenciou uma tragédia – pensei em aliviar na definição, mas o termo foi inevitável. Sim, foi uma tragédia, que nem a hermenêutica dos Maias pode interpretar ou dar consolo a todos que foram atingidos pelo impacto. Cogitei se teríamos mesmo um natal depois do que tinha se passado, mas com tradição não se brinca. A Família da Dona Inda sempre prezou pelo mês do nascimento daquele que chamam de salvador. Há fartura nos pratos, nos copos e até(!) nos corações – não é estranho deparar-se com parentes ímpares trocando idéias e experiências no momento da ceia ou do tão batido amigo oculto.

Ninguém reparou, mas a matriarca – genitora de um filho e de uma penca de mulheres – precisou de muito jogo de cintura pra conseguir manter o clima coloquial de que todos sempre se valeram. Dotada de uma serenidade de quem já muito se esbravejou, ela não condenava as mesas de café, fofoca e jogatina que compõem a rotina das mulheres da família. Tampouco julgava o porre dos netos e dos genros depois das tantas caixas de cerveja. É quase uma regra: se cansa na juventude para descansar na velhice. A verdadeira serenidade só vem depois de muita luta.

Tive com ela quinta passada, no hospital. A senhora tinha sido internada às pressas por uma razão que eu desconhecia. Cheguei ao momento em que ela mudava de quarto, e ainda que tenha sido escasso o tempo do diálogo entre nós naquela noite, denso foi o conteúdo que nele se constava. Minha avó comentou sobre meu texto e a minha barba, soltando um suspiro de cansaço depois disso. Quando ia me despedir, pediu oração.

Confesso que não sou doutor em orações – e diferente de muitos outros, creio que religião se discute sim. Nunca foi tabu conversar com a Inda, velha rezadeira, sobre a conduta dos padres em pedir dízimos incansavelmente ou em atrasar demasiado a missa e a cabeça dos fiéis. Voltei ao hospital no outro dia e não houve diálogo; ela estava mal. É claro que a preocupação existiu, mas de uma forma muito displicente, de modo que me fez até planejar uma viagem no fim de semana para entreter o estrangeiro que estava dormindo em casa.

Na madrugada do outro dia recebi a notícia de que a senhora dos terços e dos cafés tinha se ido. Senti no peito novamente o soco ácido que só a morte pode proporcionar. Vi-me de novo naquela manhã de 4 de Setembro. Vi minha mãe aos prantos, ainda que longe de casa. Vi o incerto. Visto de longe, parece mais fácil assimilar a perda de uma anciã, que já viveu o que tinha pra viver. Visto de perto, morte é morte; não tem idade, nem arrependimento. Senti a brisa fria da madrugada na cidade e escutei a música ambiente; de volta à utopia da paz. Um estar longe de tudo, um dejavú de sensações, como se eu já visse e previsse tudo aquilo que acabara de receber. Como se eu ignorasse a frieza do destino.

A hora de ser forte é agora. Dar escora, dar lembrança, dar amor. Na nossa família ninguém vai entregar o ponto. Uma onda de pesares, uma ressaca de serenidades. A verdadeira paz só vem depois de muita luta. Quem sabe será mais fácil com você aí em cima, Vó.

Bodas de Prata [ Baseado em fatos reais]


Um casal. Ambos da mesma idade. Ele era pobre, ela também. Ele saiu da roça e estudou em um colégio de padres na cidade, sustentado por seu tio, que era padre. Ela era filha de açougueiro e fazia um rolê vendendo cosméticos. Ela foi pra escola; ele pro seminário. Ele estudou história. Ela, ensino religioso. Passou um tempo. Ambos gostavam das letras. Ela quis estudá-las na faculdade enquanto ele permanecia rezando as mesmas no retiro. Ele queria ser padre. Ela, catequista.

Sabe-se lá que sonhos estranhos – quiçá eróticos – o tal jovem seminarista teve, mas decidiu largar o seminário. No mesmo momento, a moçinha inocente da cidade já tinha seus contatos profissionais desde o primeiro emprego no fórum – sabe-se lá também como, pois era tímida.

Ressalto: ambos eram tímidos (!). Ele saiu do seminário repleto de métodos, manias e sistematicidades: não aparava a barba, rezava três ave-marias a cada manhã e nada de chegar perto do que o diabo gosta. Bebida, nem pensar. Nem pra ele, nem pra ela. Pais bravos, os dois tinham. Não seria estranho que um dia se cruzassem pela vida num banco de uma praça qualquer e discutissem sobre a fonte, a igreja e o amor. Pois é, não foi. Ou melhor, foi, e foi mais ou menos assim, um pouco depois de se conhecerem:

- Que dia é hoje? – ela pergunta ao barbudo do sertão vizinho.
- 1º de Abril, Dia da mentira.
- E como sabe? Há de fazer alguma coisa hoje?
- Nem hoje nem amanhã.
- E por quê?
- Porque amanhã é meu aniversário.

A moça riu. Não conseguiu segurar a timidez, desconfiando da afirmativa do caipira como todo mundo faz em dia da mentira após receber uma observação curiosa ou boa demais para ser verdade. “Inocência tem limite”, pensou ela. O caipira não riu. Talvez porque fosse mesmo um caipira, ainda que dotado da cultura católica. Percebendo a hostilidade do clima e o acato do jovem mineiro, a garota insiste:
            
- Amanhã é mesmo seu aniversário?

Ele confirmou. Não sei ao certo se rolou uns parabéns da parte dela. Algo além disso não teve; no máximo um “tudo de bom”, ambos eram tímidos demais para tanto. E então se despediram.

Pra um jovem recém-saído de um seminário repleto de padres gordos e velhos em meio a adolescentes bitolados em altares e pais-nosso, um sorriso de uma loira interiorana sob o azul do céu em plena tarde pacata no banco de uma praça pode ser uma grande avalanche para o coração; uma espécie de prenda ou sugestão do destino. É claro que ele se apaixonou. O difícil foi ela encontrar razões para gostar de um caboclo sertanejo barbudo que acabou de sair do seminário. “Sem a barba, ele deve ser bonito” – há de ter pensado a jovem.

Encontraram-se mais uma vez – por acaso. E depois mais uma – por querer. E depois outra e outra e outra. Namoraram. O rapaz da roça não sabia ao certo se era mais difícil enfrentar a sua timidez ou a braveza do pai da moça. Namoravam na casa dela – até as 20hrs. Mais que isso era putaria, desacato à família católica dos amantes. De novo o impulso do tempo, do destino e dos hormônios fez com que ambos dessem outro passo importante nos problemas do amor.

O caipira arrumou um emprego no banco, ainda barbudo. A moçinha foi parar num cartório. Estabilizaram-se e depois se casaram. Era pra ser esse o final de uma história em que a única parte cômica foi aquela coincidência do encontro em 1º de abril. Poderia ser também o começo de uma história sobre uma família perfeita, politicamente correta e sem vícios de convivência – o filho mais velho não beberia, o mais novo estudaria e a genética do casal terminaria o resto do trabalho. Mas não, não foi assim.

Com 26 anos ele teve seu primeiro Happy hour, o primeiro copo gelado de cerveja – provavelmente deve ter comentado com os colegas de trabalho que a bebida dourada amargava a boca e que na próxima não ousaria nem provar, pediria um suco. Ela aprendeu a dançar, afinal, agora que eram casados, não havia horário que limitasse o pudor dos pombinhos. Com a cerveja ele acostumou; depois de um tempo, até incentivou que ela também estreasse no campo dos que bebem socialmente - em rodas de amigos, com salaminhos, amendoins e azeitonas. Por fim, gostaram. Haveria de ter cerveja nas compras do mês.

Ela adquiriu independência, dirigir ela já sabia, só faltava o próprio dinheiro praquele estereótipo da tão sonhada autonomia de mulher do século XX. Anos se passaram. Aprimoraram na dança, na cerveja e no sexo. Depois de uns anos, o primeiro filho nasceu.

Começaram a freqüentar novos ambientes – criar filho novo tem dessas coisas. Iam passear na praia e na cidade grande. Novidades não faltavam, mas a praia era quente e a cerveja começou a ficar pouca pro casal. As danças também passaram a cair na rotina e o pai de família foi buscar novos horizontes; acabou encontrando o samba. Tudo passou a mudar gradativamente, exceto pela barba do rapaz.

Não demorou muito pra que outro filho viesse. Quanto mais contas, mais problemas; quanto mais problemas, mais cerveja; quanto mais cerveja, mais samba. Foi aí que tudo mudou, num piscar de olhos, sem ninguém perceber – nem mesmo os filhos. Épocas difíceis expandiram o rol de amizades que foi muito além daqueles bons e velhos padrinhos de casamento. Quem via de fora estranhava: “um seminarista, intelectual, sertanejo, que toca percussão na roda de samba em meio a caixas de cerveja, não pode ser normal”. Nada que atrapalhasse.

Os filhos foram crescendo e comida não faltou. Bebida muito menos – até dizem que o mais velho se aventura nas artes do copo enquanto toca violão depois da faculdade. Samba também não faltou – o mais novo aprendeu a arte do cavaco e desbrava as madrugadas com batuque e lalaiá. Crises, várias; mas  marolinhas.

É incrível como o casamento – ou o amor – pode mudar os hábitos de um casal num desgaste de calendário.  Mudaram tanto ao longo dos anos que voltaram a ser quase a mesma coisa depois que os filhos cresceram. Um chocolate dele pra uma TPM dela. Um beijo dela pra enxaqueca dele. Açúcar e adoçante vivendo juntos no mesmo copo. O segredo para uma relação não é manter a mesma em segredo, mas com segredo(s).

Hoje cedo ele acordou, caminhou e não fez a barba; quem sabe pensou em pedi-la novamente em casamento. Ela, enquanto despertava, olhou para os dedos e deu falta nas alianças, até se lembrar de que as havia enviado para dar uma recauchutada.

Encontraram-se na cozinha, acordaram os filhos e tomaram um café daqueles que só a sinceridade da manhã pode nos proporcionar. Com mais quilos e rugas, com mais samba e cerveja, fizeram 25 anos de casados.

Ato de Café

(...)


- Deveríamos deixar de viver desse jeito.
- Como assim, Téo?
Em terceira pessoa, Gaia. Enxergando-nos de longe. Faço tudo como se me observassem: cabelo, roupa e copo. Sinto-me culpado por aquilo que não fiz. Você sente isso? Consegue se olhar de longe?
- Não.
- Por isso você é feliz.

Téo vira o copo, matando de súbito a dose que continha nele. Gaia não tinha decifrado a bebida; não precisava. De amarga, bastava a vida. 

Sobre a obviedade do ano novo

Em Dezembro todo cronista mostra a cara. É o mês da balança; um plantão para as reflexões do dia-a-dia que se acumularam até a chegada do ano novo. Até quem não escreve faz votos públicos por meio dos caracteres recheados de clichês e expectativas. As timelines das redes sociais ficam pequenas.

Quisera eu ser um Drummond e profetizar em Dezembro umas e outras coisas belas sem deixar de reconhecer as ruins. Mas o tempo não ajuda. Eu poderia dizer um sem-número de palavras capazes de adjetivar essa saga de trezentos-e-sessenta-e-cinco-dias que a gente chama de ano, reclamando e comemorando durante doze meses; mas não consigo.

Falta originalidade ao tempo. Quem sabe se o ano durasse uma década, ter-nos-ia assuntos novos e motivos de sobra para bater no peito e esperar o novo ciclo com um saldo positivo nos bolsos. A definição ocidental para o tempo se limitou à um petardo de estereótipos.

Você, senhora – coroa de dois filhos, marido e presente pra comprar – até vai conseguir entrar na academia depois da segunda semana de Janeiro e colocar em prática uma ou outra receita da Ana Maria quando o colega de trabalho do seu esposo for jantar na sua casa; mas não vai durar – no máximo até Abril, quando o Fantástico explicar a farsa da sua dieta.

Você, senhor – carro financiado, barriga de chope e contas a pagar – até vai conseguir beber menos, cortar o cigarrinho e atender ao que sua esposa católica apostólica romana pediu na época da quaresma e da menopausa; mas não vai durar – perderá o ritmo no primeiro churrasco antes do sábado de aleluia.

Você, adolescente – bixo de faculdade, com namorada nova e passado ilibado – até vai conseguir estudar, ser fiel e manter a forma e a convicção política longe de casa; mas não vai durar – verá de camarote tudo desabar depois da primeira cervejada da atlética e até vai achar graça nisso tudo enquanto estiver de ressaca.

Antes do meio do novo ano todos os votos e expectativas vão por água abaixo, escorrendo pelas mãos numa cusparada do destino. Os mais velhos se deixam levar por não ter mais nada a perder; são traídos pelo corpo. Os mais jovens corrompem a ideologia adotada em Dezembro ainda no começo do ano seguinte, quando chega o carnaval. Os mais velhos prometerão castigo aos mais novos; e estes saberão que aqueles não vão colocar a pena em prática, pois fizeram a mesma coisa em tempos passados.

Contenho-me com os pedidos e ambições de ano novo; chego a este sem quem era essencial na minha vida. Não encontro motivos para comemorar réveillon, senão por poder passar de um 31 de Dezembro para um 1º de Janeiro. 

Ato de Domingo

(...)

Téo entra no cômodo e logo se senta. Não por acaso – mas por coincidência – a música ambiente calejava a respectiva cena. Solo; tanto ele como as cordas.  Não pensava em nada naquele momento, exceto no fato de que era domingo e de que isso seria o bastante para não se ocupar com nada; afinal, não conseguiu dar continuidade em nenhum dos planos elaborados diurnamente na cama.
- Domingo tem dessas coisas – pensou ele.
Gaia abriu a porta, absorvendo num ímpeto todo cenário com que se deparava e, de súbito, interrogou o status da alma alheia: 
- Está triste?
- Estou.
Mas talvez não estivesse. Respondeu num susto, com a certeza de que a resposta calaria a interlocutora. O disparate foi como uma denúncia transcendental. Como se nos azulejos da parede à sua frente estivessem colados um par de espíritos, resistentes a sabonetes e detergentes, mas inertes às demandas da rotina humana.
Ela não contestou. Em dias assim a ausência se basta. Téo alongou os braços sem nenhuma razão lógica para tal ato; e suspirou. Gaia respeitou o minuto e tornou a abrir a porta.
- Você também está assim? – interrogou o rapaz de modo a frear a passada da mulher.
- Assim como? Triste?
- Não.
- Como então?
- Como se não fosse possível viver sem consciência e você estivesse necessariamente disposto para tanto.
- Como naqueles momentos em que a gente não encontra o ar?
- Mais ou menos. Como se para encontrar o ar nós precisássemos da boa vontade dos Deuses e do bom senso dos espíritos.
- Acredita em espíritos?
- Só nos ruins. As boas almas do outro plano nunca me apareceram em momentos de solidão; diferente daquelas obscuras de que me lembro desde as noites mais remotas da infância.
- E nos Deuses, você acredita Téo?
- Apenas nos distraídos. Talvez isso explique o destino. Coisas boas e ruins acontecendo sem prévias justificativas, mas com explicações póstumas, ainda que não plausíveis.
- Talvez isso explique a sorte e o revés.
- Talvez.

De outras cartas e elegias

De que vale, se de tudo fui testemunha? De que vale se não há pra quem contar? O passado não passa de um guardanapo engordurado. No seu caso, um rascunho bem feito de uma caricatura minha. Choro agora – e tenho no meu choro mais sinceridade do que qualquer discurso político. Um soco no estômago. Crime   torpe em minha rotina. Sinto falta do silencio que não incomoda. Quem saberá o que se passou antes do ápice de sua ausência? Somos separados por minutos. Que se danem os espíritas se o meu apego te puxa de volta. Ainda lembro-me das esquinas. Ainda choro com tuas músicas. Prefiro-te aqui por perto. Sem choramelas nem demagogia; só saudade. Quero alguém pra pilotar o Jipe azul; quero alguém pra acertar o alvo; quero alguém pra arrumar meu acampamento quando eu não estiver em condições de fazê-lo. Quero te pedir perdão – se houver razão; ainda que tarde. Sou caricatura d’um retrato que foi embora.

Politicamente saudável

Ando perdendo o respeito aos homens. E não falo do respeito atinente aos princípios sociais – como aqueles pregados nas igrejas, dinâmicas escolares e ceias de natal. Digo do respeito enquanto sinônimo de esperança, lendo-se também mulheres quando escrevo no gênero masculino.

Acontece que acabo de chegar de São Paulo. Um amigo estava dando (mesmo) uma volta ao mundo e acabara de vir direto do Irã. No fim de semana na terra do Arnesto fui à mostra internacional de cinema, ao samba do bule, tomei cerveja na Augusta e conheci um perspicaz cineasta da Cerqueira César. Um mineiro na gema paulistana. Releva-se também – como motivo para tal crônica – que ando lendo Roberto Freire e hoje acordei com o som de um diálogo metafísico entre minha mãe e suas orquídeas. É aí então que veio a conclusão n’um petardo semanal: ando perdendo o respeito aos homens.

Comecemos por São Paulo. O metrô da linha verde em SP é freqüentemente cenário de uma disputa niilista. Percebe-se que – apoiada à janela – sempre há uma morena indie de panturrilha definida disputando a cena Nouvelle vague com um rapaz de camisa xadrez e óculos wayfarer. Ambos os jovens se fitam. Ela – vestindo um mau-humor de falsa TPM traduzido pela bolsa indiana comprada na Praça Benedito Calixto – sente pelo cara um interesse substancialmente suficiente para convidá-lo a ir ao Franz Café, oferecer um cappuccino, discutir Woody Allen, e então levá-lo ao seu apê a fim de dar ao rapaz magro, sua vagina não-depilada de menina bem-resolvida. O cara, por sua vez, desde a primeira vista faz cara feia. Entra no metrô estático e estaciona no encosto mais próximo. Como já dito, ambos se fitam. Mas de nada adianta. A barba por fazer só traduz o interesse na garota. Imagina convidá-la para ir tomar Serra Malte na esquina do Charm, depois levá-la ao cinema no Espaço Unibanco e por fim discutir Nelson Rodrigues na poltrona laranja da livraria cultura. De nada adianta. Nenhum dos jovens esboça qualquer ato, qualquer movimento a fim de dar continuidade à hipotética situação de fim de tarde. O amor globalizado desse nosso Brasil de Lula resume-se na máxima de “não correr atrás”, onde não demonstrar interesse é sinônimo de charme e superioridade social. Já diria Bruno Graziano, os jovens do metrô da linha verde abandonaram as esquinas e estão rumando cegamente ao intocável cenário do romance facebookiano.

No samba do bule presenciei outro paradigma; uma cena não só ocorrida em SP como em qualquer lugar desse país. Daremos o nome de síndrome do vira-lata. Em volta da roda, espalhadas pelo galpão e até na fila do banheiro, mulheres lindas se encontravam presentes. Como em qualquer ambiente de descontração regado à cerveja e música, encontravam-se também diversos rapazes. Samba vai samba vem, nada parecia acontecer. Os rapazes se agrupavam, fitando de longe a beleza das presentes. Não-iniciativa. A cena se antecipava aos casais numa onda de timidez anos 80. A maioria dos homens não intentava nenhuma atitude calorosa quando deparados com uma mulher bonita com cara de cu. Pareciam se sentir inferiores, ameaçados pelo inconsciente rabo de saia de falso-chame.  Sino no pescoço. Síndrome de vira-lata.

É o fim do olho no olho. É o fim das esquinas. O adeus das sextas-feiras. Voltemos. Já dizia eu que estou lendo Roberto Freire. Leitura coincidentemente sugestiva diante de tal contexto semanal. Explico. Em Ame&dêvexame o autor conclui a escassez da liberdade no amor; e vice-versa. Analogicamente, é justamente o que anda acontecendo. Essa adesão às ondas virtuais só serve de vestido estereótipo. O feminismo agora ataca como um advento necessário a toda menina que passou dos treze, exilando o encantamento dos cortejos e bons costumes. É tempo de extremismos. Num mundo de sete bilhões de mentes, ironicamente o pluralismo é bem menor. Centenas compartilham opiniões em comum e curtem incansavelmente a mesma coisa cada vez mais; não se preocupando em criar, produzir ou buscar concepções próprias e originais. Uma chuva preguiçosa de auto-suficiência feminina nas timelines mundiais. As feministas exigem um pré-contato virtual antes do primeiro encontro. Há nessas mulheres a ideia de que não há mais a necessidade de um grande homem à frente de uma grande mulher.

Ando perdendo o respeito aos homens. Entre o politicamente correto e o incorreto; escolho o politicamente saudável. 

Panela velha


Toda a particularidade do Domingo está no fato de que nos sobram tempo e ócio suficientes para alcançar pouca produtividade ao longo do dia. Num breve resumo: alguns vão à missa, outros assistem às corridas e os – perspicazes – retardatários continuam dormindo. Ocorre que, sem sucesso em nenhuma das alternativas colocadas em evidência, aderi ao que receitava o sabido poeta lusitano e resolvi fazer ten(ç)ão de todas as coisas da vida.

Não havia momento mais apropriado do que o almoço. Pra quem não sabe, cozinhar sozinho é uma atitude tão introspecta, ociosa e particular quanto o cafezinho dos professores de filosofia – entenda-se tal introspecção como aquele momento em que nos vêm à cabeça um petardo de merdas (!) – de todos os lugares e qualidades; e então nos lembramos do vencimento da conta, da prova de quarta e da cerveja de sexta.

Pois bem. Estava eu cozinhando o arroz dominical sem nenhuma pretensão filosófica quando, por acaso, me atentei à facilidade com a qual os grãos se soltavam do negro e desgastado fundo da panela. Não era o óleo. Tinha certeza. Em outros recipientes o arroz não era tão brilhoso e nem tão soltinho. O mérito era todo da panela – o mais antigo apetrecho do cômodo refeitório.

Enquanto terminava meu simples prato de arroz branco me veio à mente uma corrente de notas da semana. E, misturando o almoço com as notícias – numa sagacidade de sábio chinês – cantei: panela velha é que faz comida boa (!). Explico.

Ontem, no seleto núcleo Repnóia de amizades, recebemos uma boa nova de Rodrigo Gonçalves – que de nova, não tem nada. Nosso saudoso amigo nos confidenciou suas eróticas aventuras com sua deusa Milf. Foi o bastante para que cada um do grupo se lembrasse de suas próprias façanhas com as titias do bar. Pois então; mudemos agora de cômodos, e vamos da cozinha para o quarto.

Milf ou coroa, tanto faz. O importante é ter idade e experiência o suficiente para fazer direito. Todo homem que já experimentou – desde cedo e intensamente – da boemia sabe o deleite que é trepar com uma mulher (muito) mais velha. Poderia citar dezenas de amigos que – como diria Milton Leal – comeram até o caroço desta fruta madura.

É sempre por acaso. Não pense você que um moleque vai parar numa cama (já) estreada de modo pensado. Dirá Márcio Lacerda, “eu vou”. Acalme-se Marcinho, você é exceção. Mas voltemos. A cena típica é: chegamos ao bar, bebemos, nos perdemos dos amigos, bebemos, frustramo-nos com alguma Chris, Bia ou Gabi de vinte e poucos anos, bebemos; e por fim, estacionamos no balcão. Neste momento, não nos resta nenhuma pretensão e aguardamos pura e simplesmente a hora de fechar o recinto. O trabalho está feito.

E então, é aí que a Milf aparece – turva e intensa como a nossa míope visão etílica do momento. Ainda desapontados pelas tentativas anteriores arriscamos um último tiro; um suspiro. Apenas uma deixa. Atiramos a ultima flecha no peito exposto; e acertamos. Acabamos recepcionados peito a peito com um papo adulto, sincero e carinhoso. Quando saímos do bar – após o mútuo consentimento acerca do convite de ir até a casa mais próxima – avistamos o possante e engatamos o passo até o relento da paixão.

Quando é chegada a hora, desde as preliminares o rapaz se surpreende; para bem. Ele usa e abusa das novas posições, faz pedidos a ela – que os realiza sem pensar duas vezes – e se sente até abraçado. Com amor, mas sem pudor. Ele é o arroz branco que se solta. Ela é a panela. Após a idílica experiência, ele volta para casa são e salvo – mais salvo do que são – e com a cabeça no travesseiro, dorme e sonha com a coroa.

O menino acorda no outro dia com paz de espírito. Toma um sagaz café da manhã e vai à faculdade de peito aberto, ansioso para contar aos mais chegados o benefício da troca noturna. Foram-se os problemas. Como lembra o cronista Xico Sá, só se cura um amor platônico com uma trepada homérica.

Sabe-se lá que arroz branco foi Sérgio Reis em outras vidas ou a idade da panela que ele usava; só vale dizer: “panela velha é que faz comida boa”.

Sobre nós


Brigamos por migalhas
fazemos sujeira
vamos à igreja 

Não somos 
outra coisa 
senão 
pombos

Orquídea


Peso a peso
Meço os poréns
- Uma noite mal dormida
Um domingo de azia -

Na balança que me fita
Um relatório se segue
Nele estão contidas
Coisas como dinheiro
Saúde ou companhia

Num próximo momento
Desprovido de qualquer ocupação
Uma senhora me assalta o tempo
Dissertando sobre a saudade
E o porquê dos nomes das ruas

A senhora já não nota
Mas há tempos não respira
Trocou sua veia viva
Pelo caule da orquídea
Que lhe colore a face
Com o reflexo das pétalas

Elegia

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais. Indagamos a razão de uma simples travessia em decorrência de uma confusão entre os limites de inicio, meio e fim. Trocamos a tristeza pela saudade e a aceitação pela conformidade. Ora, uma travessia pode ser feita por pernas ou pneus! E por que não asas? Asas de anjos.


Temos a mania de tomar para si toda indireta que aparece pela frente quando algo não está claro. Como quem coleta pistas pra entender o passado ou descobrir o futuro. Como se não houvesse verso de amor, frase de liberdade ou música de saudade que não fosse feita especialmente para (re)afirmar a (in)certeza do tempo de agora. Vivemos em busca da epifania.


É preciso aceitar com serenidade, sem a súbita necessidade de encontrar explicações para cada ato, cada fato. Nossa alma não obedece às leis da física. Milênios se passaram sem que cientistas apresentassem qualquer prova concreta acerca da existência de Deus. Impérios foram derrubados sem que alquimistas pudessem nos mostrar biologicamente como funciona o amor; e ainda assim acreditamos – e tanto Deus, como o amor, são às vezes plausíveis para todos nós. Por isso, não contamos com a capacidade de atribuir à morte, sua própria posição. Não foi o fim, nem para Rafael, nem para Carolina – e para nós, quem sabe seja apenas o inicio. Afinal, não estamos todos encaminhados?


Carol concordaria – balançaria discretamente com a cabeça dizendo que sim e voltaria sua atenção para o próximo capítulo do livro. E quem seria o Rafinha pra discordar? Ele que exalava amor do corredor à cozinha? Ele que de anjo, levou até o nome? Como bem lembra Aline, estamos todos encaminhados.


Não vou insistir no clichê de que há males que vem para o bem – porque o mesmo não cabe no contexto. O que vem ao caso são as lições de que todos nós temos a capacidade de absorver. O que vem ao caso é o nosso potencial de não repetir os velhos erros.


Recusamos facilmente um convite de aniversário em troca daquela reunião inadiável. Fugimos do almoço de domingo e seguimos para a churrascaria com os colegas. Erramos. Tal erro só se torna perceptível quando tomamos ciência de que alguém próximo faleceu. E então abandonamos o trabalho, a faculdade e a cidade, rumando míopes até o apoio mais próximo; até a escora familiar. E para quê? Para ver o corpo. O mesmo corpo do qual tivemos infinitas oportunidades de abraçar nos almoços de domingo. Trocamos a alma, pela matéria. Erramos.


Todos nós guardamos uma boa lembrança. Um Jipe, um chocolate ou um pôr-do-sol – daqueles que a gente só via nos acampamentos em família. Estrelas não faltam em nossas vidas. Duas luzes surgiram através da linha mais reta, obedecendo, pura e simplesmente, às leis divinas e naturais. Obedecendo a seu próprio tempo; seu tempo de anjo. Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais.

Carta para um anjo

Caro Rafa,

Mas que atalho inconveniente foste atravessar. Logo você. Logo você que dormia em montanhas, morava num jipe e rapelava paredões de pedra. Logo você que me ensinou a dirigir. Lembra? A praia de Ubatumirim era deserta, a cerveja era gelada e o carro não chegou a morrer, ainda que fosse de areia o que sustentava nossos pneus. Fazia sol. Sempre fez sol quando estávamos juntos. Mal sabe o sol que perderia para você o posto de estrela-maior. Ah, o sol! Este mesmo já não faz mais sentido e eu até já mandei desenharem no horizonte outro astro, outra luz, com outro nome. Acredite Rafa; eu fiz isso. E sabe por quê? Porque o sol não pode mais se pôr sem sua principal platéia; sem eu e você, juntos. Lembra de quando assistíamos de camarote ao pôr-do-sol? Lembra Rafa? Economizávamos no café, poupávamos na cerveja e comprávamos vinho barato a fim de abastecer o tanque do Jipe; abastecer o tanque e a alma, o bastante para encontrar o horizonte e a paz de espírito. Mas que ironia, Rafa; que ironia. Que ironia você se pôr em minha vida; como uma estrela que desaparece na linha mais reta, obedecendo, pura e simplesmente, às leis divinas e naturais. Obedecendo a seu próprio tempo; seu tempo de anjo. Está escuro, Rafa. Estou escuro. É um negro triste, que não é de treva, mas de saudade. Você apagou a luz da minha vida; como um irmão mais velho apaga a luz do quarto num sutil toque no abajur; e sai, pé ante pé, pela fresta mais próxima, a fim de proteger o sono do outro; o sonho do outro. Mas eu, Rafa, eu que sou seu irmão mais novo, não posso dormir, tampouco sonhar. Insônia e pesadelo se misturam no cômodo do meu peito; no quarto da minha saudade. E eu não descanso, Rafa. Eu não vou sossegar até que veja uma nova estrela acima da minha cabeça. Porque você, meu irmão, ainda é mais importante do que qualquer Ursa maior, Cruzeiro do sul, ou qualquer outra constelação bocó. Porque da luz você vieste, caro Rafa, e não é outra coisa senão estrela. Tenho hoje meu próprio universo. Minha vida sem você é um universo, primo. E sabe por quê? Porque tenho no presente e no meu peito mil-e-um lugares inabitados e o que eu conheço ainda é muito pouco. Sabem-se lá quantas galáxias habitam em nossos corações, meu amigo. Mas deixemos a metafísica. Não somos bons com ela. Conte-me do paraíso. Como é tudo aí em cima? Pode-se beber cervejas de trigo como aquelas que tomávamos nos empórios? Aguardo resposta. Lembre-se que isso é uma carta, uma correspondência, e a mesma não faz qualquer sentido se não houver resposta. Não é porque você é um anjo que devo dirigir-me a ti em forma de oração. Não é, Rafa. Falando em anjos, sabe que hoje a existência deles se tornou plausível para mim? Anjos mesmo, primo. Daqueles de cabelos loiros e olhos claros, assim como você. O que disseram aí em cima do teu histórico? O que disseram de mim? Eu que ficava sempre puto com a vida, Rafa. Eu que ficava sempre puto com teu atraso. Eu que – REPITO – ficava sempre PUTO quando perdia a chave do carro, a carteira ou o celular. Eu que agora perdi você. De nada adianta as pequenas coisas, Rafa. É tudo supérfluo. Não me importo com mais nada, que não o sangue que corre em minhas veias. O mesmo sangue teu. A muralha do meu ceticismo contrasta hoje com a esperança da vida eterna. Falo sobre a eternidade da sua vida, não da minha. Eu não teria saco, pretensão ou paciência de anjo para viver eternamente. Não rezei direito ainda. Sou gauche em orações. Preciso mesmo rezar por você? O bom senso me diz que deveria ser ao contrário. Aproveitando o ensejo, peço para que reze por mim. Reze, Rafa; porque eu preciso. Ainda lembra-se das minhas queixas, primo? A porra do meu trabalho, a mesquinhez da minha faculdade e meus amores mal-sucedidos? Breathe in the air. Vou escutar nossas músicas, quem sabe passe. Vou ouvir Pink Floyd. By the way... Gostou da música que toquei pra ti hoje? Os acordes de “Mother” acompanharam liricamente os centímetros do seu túmulo; e eu me senti vivo. Foi uma linda cerimônia, não?  Não sei como é seu tempo aí no céu. Vou me despedindo e aguardo respostas – positivas. Que você continue a ser minha luz: o abajur do meu quarto, o farol do meu barco ou o sol do meu horizonte. Um grande abraço “peteteco”. “Alu Mará” e bom futuro!
“Shine on you crazy diamond!”

Gustavo Faria.          
5 de Setembro de 2011.

Lasca

Talho o peito
Com o acaso

Uma lâmina
De pesares
Que equipara
O passado
E o presente
N’um nível
Epífano

Como um gás
Resido
Aleatoriamente
No espaço
Reticente
D’um caminho
Misantropo

Dissipo
No peito que
Tampouco pára
– mas sopra –
Sobrestando
Estático

Do outro lado

Um dia com os detentos da APAC.


- Onde mora? Te conheço de vista faz tempo. - Disse-me um rapaz nesta manhã de sexta-feira. Quando o fitei também o reconheci e justamente pela localidade interrogada; ele estava certo. Tempos atrás éramos vizinhos. Eu havia acordado cedo com o telefonema da escrivã da 2ª vara cível pedindo para que me dirigisse até o velho arquivo do Fórum. Fui, e quando dei conta, me vi no meio de uma mudança.


A cidade de Pouso Alegre/MG recentemente ganhou um novo local para o exercício dos tradicionais atos jurídicos. Após uma obra no valor de R$ 1.151.464,40, o Fórum Orvieto Butti atua desde 27 de Junho sob novas instalações. O precário – e antigo – edifício situado no centro da cidade, hoje é tombado como patrimônio histórico e até esta semana abrigava os processos arquivados. A mudança foi motivo de grande divergência na cidade. Mesmo com instalações melhores – nas quais se pode contar com elevador, copa e estacionamento – a novidade criou “razões” para que muitas pessoas torcessem o nariz. O principal motivo se deu pela distância, em virtude do – não tão longo – perímetro territorial de Pouso Alegre. O novo endereço dos atos processuais se encontra acerca de 10 a 15 minutos do centro da pequena cidade.
Ocorre que, em razão desta transição, se fez necessário que alguém movesse os processos do velho para o novo arquivo. Tal função foi atribuída a mim – estagiário – e aos detentos da APAC.


APAC é o mesmo que Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. Enquanto projeto, acompanhado pela justiça, pode-se afirmar que tal instituição se funda em sucesso e tem total credibilidade ante os membros do judiciário pouso alegrense. Os hábitos e costumes da casa são bem diferentes daqueles vistos corriqueiramente no presídio. Os presos definem sua rotina no projeto como “suave”. Não há brigas por lá e eles se encontram passíveis de falta freqüentemente. Quando quis saber sobre as condições do presídio (outro lado da moeda), recebi um: “é foda”. A superlotação é o maior problema e a ausência de normas para regular a conduta dos detentos faz com que surja a velha guerra de todos contra todos. N’um espaço sem regras, sobrevive o mais forte. Na cadeia é assim.


O rapaz que citei no início do texto é Luan – detento que cumpre pena por meio da APAC. Ele paga cinco anos obedecendo aos ditames da lei 11.343/2006. “A casa é o nosso meio de fumar um cigarrinho e tomar cafezinho enquanto estamos na rua labutando. São três (anos) por um. Pra gente que vive preso, é a solução.” – afirma ele. Na APAC, Luan até aprendeu a fazer pão – que é vendido toda tarde a fim de sustentar o café vespertino dos funcionários. “Profissão ao sair daqui, eu já tenho.” Afirma ele, confiante.


O encargo do qual nos ocupava resumia-se em transportar as caixas de arquivo – soma de processos que não se encontram mais ativos - do segundo piso do prédio até o caminhão, por meio de uma rampa de madeira. Mil e duzentas caixas. Quantidade suficiente para gerar tempo a fim de proporcionar nova troca de experiências com os detentos. O trabalho entre nós era exatamente o mesmo: o primeiro pegava a caixa, arremessava para o segundo, e este jogava para o terceiro, que organizaria em fileiras todas elas. Ao longo do trabalho tive a oportunidade de interrogar displicentemente quase todos eles.


O segundo foi Armando – mineiro de trinta e quatro anos, com esposa e filho. Mora(va) no Chaves - bairro rural do município. Armando foi condenado a 26 anos de regime fechado. Quando pergunto o motivo da condenação, recebo dele, na ponta da língua: “157 com 121”. É mais do que certo que detento no Brasil conhece mais de lei penal do que qualquer estagiário do Direito. O artigo 157 do C.P diz respeito ao furto. Armando responde pelo respectivo crime, acrescentada a pena qualificadora do parágrafo 2º, inciso I do Código penal; resumindo: assalto a mão armada. O homem nega de pé junto que cometera tal ato. Naquele tempo, a delegacia de Brasília recebera uma denúncia anônima na qual seu nome se encontrava. Um ônibus que vinha do Paraguai havia sido saqueado por bandidos armados; o mentor seria ele. Armando – já adulto – assumiu a relação com tal gangue, mas negou a prática do ato infracional. Disse que não foi reconhecido pelas pessoas que assinaram a lista de testemunhas. Não duvidei após ter aprendido que um detento não mente quando não possui mais nada a perder. O outro artigo de Armando foi o 121: homicídio. Quando perguntei o porquê do crime ele se politizou. “Assumi”, disse ele – e mais nada. Talvez tivesse sido um justo motivo.


Cheguei a conversar – ainda que distraidamente – com vários outros presos. A razão da reclusão era quase sempre a mesma: tráfico de drogas. Da marcha legalize vários motivos provém. Hoje a droga é um problema de segurança, enquanto deveria ocupar o cenário da saúde; tendo em vista que um problema de saúde é muito mais fácil de ser combatido pelo governo, pois não depende de bandidos, contando apenas com o bom senso da nossa – nada efetiva – política brasileira. De tão lembrado, tal argumento passou a clichê, mas não à mentira.

Enquanto descarregava, ao lado de meus atípicos colegas, o caminhão cheio de caixas ocupadas por mil-e-um processos correspondentes a conflitos da vida familiar, ouvi de Luan: “Daqui eu vejo minha casa, é logo ali. Fico tão puto. Tão perto e tão longe. Corro contra minhas pernas. Um e oito (anos), e já era.”

Oito horas de trabalho braçal e organizamos o arquivo da 2ª vara cível. Mil e duzentas caixas contendo dezenas de milhares de processos. Milhares vidas que se vão. Volto do Fórum pensativo. Recebi mais respeito dos detentos, do que dos advogados com quem convivo diariamente. Dividi coca-cola, gíria e espaço. Pela vida ou pela morte, por ódio ou por amor: errar é humano.

O homem down

N’um primeiro momento não conseguiu abrir os olhos – não sei se por inércia do sono ou pela remela concentrada na extremidade dos cílios. A boca carregava um amargo ressecado que o remetia a qualquer uma das doses que tragava repetidamente horas antes de dormir – Campari, talvez. Quando enfim constatou que ainda enxergava teve o impulso do despertar limitado por uma dor que subia da nuca até a cabeça. Não demorou para que o desconforto amanhecido fizesse com que carregasse o peso de todas as atitudes (des)cometidas que – supostamente – cometera; e digo “supostamente”, com tanto tino, pois não haveria neste mundo viv’alma que pudesse lembrar dos fatos passados em tais circunstâncias noturnas. O esquecimento é o pai do arrependimento. Foi do quarto ao banheiro sem sequer saber que horas eram; apenas com a esperança de que, quem sabe, tivesse acordado em outro corpo, outro plano. Falha. O espelho do banheiro lhe cuspia um reflexo de quem já muito fez e pouco aprendeu. O espelho é uma verdade inconveniente - tal como fotografia ou parente distante. Domingo. Em domingos de manhã só existem dois tipos de pessoas: aquelas que vão à missa e aquelas que não despertam. Concluiu que, pelo horário, ao mesmo tempo em que se olhava, qualquer gente daquela primeira classe de pessoas (lato sensu) estaria em cantos eucarísticos pedindo pela salvação de suas almas – ou da dele. Colocou qualquer roupa que suprisse o trajeto caseiro. Na cozinha, tentou água e coca. A água parecia clorada e a coca (cola) tinha gosto de rum. Na cabeça, tinha um pêndulo que lhe atrasava os sentidos de tal modo que não (ou)via muito bem qualquer som oportuno que fosse. Na sala, tentou televisão; e na TV não havia o que tentar. Caminhou até a varanda e de súbito teve a certeza de que não existe nesta vida habitat ideal para um pós-bêbado. Introspecção. A ressaca proporcionava-lhe a chance de filosofar sobre seus dias. Digo isto pois, o ofício de pensar não nos cabe na rotina, aparecendo apenas nesses dias em que tudo é nada. Tinha na barriga qualquer coisa que balançasse o que carregava por dentro dela. Um arroto quase jogou pra fora o pouco que tinha consigo. Tentou lembrar – em vão – do que pudesse ter ocorrido na madrugada anterior. Os ambientes não tinham cor, a música era uma só e qualquer mulher que fosse usava batom vermelho. Qualquer mulher. Nada (em) forma. Fora para a noite por não ter nada a perder - no dia. Voltou para o banheiro; quem sabe o espelho falasse. Do que conseguiu lembrar, não gostou. Foi o suficiente para que sua barriga cuspisse pra fora todo o pouco suprimento que tinha. Ajoelhou em frente ao vaso e deixou que o jato amargo refrescasse sua memória. Concluiu que, pelo horário, ao mesmo tempo, as pessoas que iam à missa devessem estar também ajoelhadas e dificilmente pediam tanto por salvação quanto o pobre impotente. “O banheiro é a igreja de todos os bêbados”, dizia a música. Ajoelhadas, as pessoas não mais se dividiam. Amores mal-sucedidos, amizades esquecidas e falta de dinheiro. Não havia outro remédio. “Que atire a primeira pedra”, cuspiu ele um pouco rouco.

Até o fim

Do alto do meu ócio
Brasileiro e preguiçoso
Procrastino o afazer
Do amanhã ao feriado

Regado a sauvignon
Cantando din don don
Caminho pela calle
Feito um gauche bon vivant.

Un coche em Chacabuco
Uma dose na Augusta
Rumo à Copacabana
Coisa que muito me gusta

Paro hoje em cada esquina
Diante de toda vista
Meu futuro é reticente
Meu presente amanheceu

Deus sabe o quanto andei
Na fartura do pecado
Pois bato no peito e digo

- Como é bom viver errado.

Noite adentro

Da varanda do oitavo andar reparo que lá embaixo um porteiro ensaia suas próprias conclusões sob a sombra desta indiferente madrugada de outono. Não que me falte assunto para escrever, mas agora este porteiro é o que me fita de mais humano em minha frente – ainda que em minha frente eu possa ver centenas de telhados, transeuntes e antenas também indiferentes e também sob a mesma madrugada de outono. Ocorre que Severino – sabe-se lá se lhe é este mesmo o nome dado de nascença, mas lhe cabe bem em razão da função – pois, acontece que, este Severino ali embaixo se passa tão despercebido pelos pára-brisas e cortinas que lhe atravessam que sua personalidade daqui já não se fundamenta em outra coisa, senão no bom senso de quem um dia já desprezou ou provou de algum desdenho. Percebe-se que sua rotina não se baseia em outra coisa que não em feições providas de caridades e insatisfações.

Vejo que ele cruza as pernas e encosta-se à coluna do muro – atitude de quem pensa, pois não lhe cabe agora outro ofício em razão das condições de tempo e espaço – e assim, não lhe cabendo mais nada no momento além de vigiar sua pobre alma, filosofa sobre o prazer de haver sido. O momento de introspecção de Severino registra sua vingança frente à indiferença de quem vive no posto da cabine insufilmada de um edifício urbano.

Enquanto termino daqui de cima meu preguiçoso copo d’água noto que Severino também carrega uma bebida em mãos. Os mais distraídos diriam que ele agora poderia estar bebendo qualquer coisa, mas o raciocínio lógico a que o ócio me submete sugere que Severino está bebendo café. Pois, se existe nesse mundo algo sugestivo para um vigia – e filósofo – carregar em mãos numa madrugada silenciosa, cotidiana e sem novidades, é uma boa dose de cafeína.

Percebo que nosso humilde porteiro cruza agora os braços e sai em passos lentos no perímetro do portão. É bem certo que não possui ao alcance outra arma que não seja o interfone – o que atribui ao nosso personagem um tino – até – de corajoso. Mas voltemos ao prazer de haver sido (pois não me resta agora outros traços cabíveis ao caráter deste empregado padrão e as descrições pessoais aqui se encontram um tanto extensas).

Na companhia de uivos perdidos pensa ele agora – o que haveria de ter sido? – E penso eu: há sempre um dia em que somos obrigados a indagar o progresso. E então pensa ele agora que trabalha com portões dia e noite esperando o instante de vencer o humor do síndico. Pensa ele agora que abre e fecha garagens aguardando a recompensa da maleta encontrada cheia de títulos e notas que pertencia ao empresário da cobertura. Pensa ele agora que carrega o fardo de ter hábitos forçados em benefício de sono alheio. Pensa ele agora sem raciocinar.
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Uma luz que se apagou no prédio da frente fez com que eu desviasse o olhar e perdesse Severino de vista. Atentei-me para a cabine escura da portaria e não enxerguei seu vulto. Percorri o olhar sobre os blocos do condomínio e segui sem notícias de nosso vigilante noturno.

Sento na poltrona da varanda, abro um livro e leio: “Outra vida, da cidade que anoitece. Outra alma a de quem olha a noite. Sigo incerto e alegórico. Sou como uma história que alguém houvesse contado.”

Que tenho eu com a vida?