Sobre nós


Brigamos por migalhas
fazemos sujeira
vamos à igreja 

Não somos 
outra coisa 
senão 
pombos

Orquídea


Peso a peso
Meço os poréns
- Uma noite mal dormida
Um domingo de azia -

Na balança que me fita
Um relatório se segue
Nele estão contidas
Coisas como dinheiro
Saúde ou companhia

Num próximo momento
Desprovido de qualquer ocupação
Uma senhora me assalta o tempo
Dissertando sobre a saudade
E o porquê dos nomes das ruas

A senhora já não nota
Mas há tempos não respira
Trocou sua veia viva
Pelo caule da orquídea
Que lhe colore a face
Com o reflexo das pétalas

Elegia

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais. Indagamos a razão de uma simples travessia em decorrência de uma confusão entre os limites de inicio, meio e fim. Trocamos a tristeza pela saudade e a aceitação pela conformidade. Ora, uma travessia pode ser feita por pernas ou pneus! E por que não asas? Asas de anjos.


Temos a mania de tomar para si toda indireta que aparece pela frente quando algo não está claro. Como quem coleta pistas pra entender o passado ou descobrir o futuro. Como se não houvesse verso de amor, frase de liberdade ou música de saudade que não fosse feita especialmente para (re)afirmar a (in)certeza do tempo de agora. Vivemos em busca da epifania.


É preciso aceitar com serenidade, sem a súbita necessidade de encontrar explicações para cada ato, cada fato. Nossa alma não obedece às leis da física. Milênios se passaram sem que cientistas apresentassem qualquer prova concreta acerca da existência de Deus. Impérios foram derrubados sem que alquimistas pudessem nos mostrar biologicamente como funciona o amor; e ainda assim acreditamos – e tanto Deus, como o amor, são às vezes plausíveis para todos nós. Por isso, não contamos com a capacidade de atribuir à morte, sua própria posição. Não foi o fim, nem para Rafael, nem para Carolina – e para nós, quem sabe seja apenas o inicio. Afinal, não estamos todos encaminhados?


Carol concordaria – balançaria discretamente com a cabeça dizendo que sim e voltaria sua atenção para o próximo capítulo do livro. E quem seria o Rafinha pra discordar? Ele que exalava amor do corredor à cozinha? Ele que de anjo, levou até o nome? Como bem lembra Aline, estamos todos encaminhados.


Não vou insistir no clichê de que há males que vem para o bem – porque o mesmo não cabe no contexto. O que vem ao caso são as lições de que todos nós temos a capacidade de absorver. O que vem ao caso é o nosso potencial de não repetir os velhos erros.


Recusamos facilmente um convite de aniversário em troca daquela reunião inadiável. Fugimos do almoço de domingo e seguimos para a churrascaria com os colegas. Erramos. Tal erro só se torna perceptível quando tomamos ciência de que alguém próximo faleceu. E então abandonamos o trabalho, a faculdade e a cidade, rumando míopes até o apoio mais próximo; até a escora familiar. E para quê? Para ver o corpo. O mesmo corpo do qual tivemos infinitas oportunidades de abraçar nos almoços de domingo. Trocamos a alma, pela matéria. Erramos.


Todos nós guardamos uma boa lembrança. Um Jipe, um chocolate ou um pôr-do-sol – daqueles que a gente só via nos acampamentos em família. Estrelas não faltam em nossas vidas. Duas luzes surgiram através da linha mais reta, obedecendo, pura e simplesmente, às leis divinas e naturais. Obedecendo a seu próprio tempo; seu tempo de anjo. Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais.

Carta para um anjo

Caro Rafa,

Mas que atalho inconveniente foste atravessar. Logo você. Logo você que dormia em montanhas, morava num jipe e rapelava paredões de pedra. Logo você que me ensinou a dirigir. Lembra? A praia de Ubatumirim era deserta, a cerveja era gelada e o carro não chegou a morrer, ainda que fosse de areia o que sustentava nossos pneus. Fazia sol. Sempre fez sol quando estávamos juntos. Mal sabe o sol que perderia para você o posto de estrela-maior. Ah, o sol! Este mesmo já não faz mais sentido e eu até já mandei desenharem no horizonte outro astro, outra luz, com outro nome. Acredite Rafa; eu fiz isso. E sabe por quê? Porque o sol não pode mais se pôr sem sua principal platéia; sem eu e você, juntos. Lembra de quando assistíamos de camarote ao pôr-do-sol? Lembra Rafa? Economizávamos no café, poupávamos na cerveja e comprávamos vinho barato a fim de abastecer o tanque do Jipe; abastecer o tanque e a alma, o bastante para encontrar o horizonte e a paz de espírito. Mas que ironia, Rafa; que ironia. Que ironia você se pôr em minha vida; como uma estrela que desaparece na linha mais reta, obedecendo, pura e simplesmente, às leis divinas e naturais. Obedecendo a seu próprio tempo; seu tempo de anjo. Está escuro, Rafa. Estou escuro. É um negro triste, que não é de treva, mas de saudade. Você apagou a luz da minha vida; como um irmão mais velho apaga a luz do quarto num sutil toque no abajur; e sai, pé ante pé, pela fresta mais próxima, a fim de proteger o sono do outro; o sonho do outro. Mas eu, Rafa, eu que sou seu irmão mais novo, não posso dormir, tampouco sonhar. Insônia e pesadelo se misturam no cômodo do meu peito; no quarto da minha saudade. E eu não descanso, Rafa. Eu não vou sossegar até que veja uma nova estrela acima da minha cabeça. Porque você, meu irmão, ainda é mais importante do que qualquer Ursa maior, Cruzeiro do sul, ou qualquer outra constelação bocó. Porque da luz você vieste, caro Rafa, e não é outra coisa senão estrela. Tenho hoje meu próprio universo. Minha vida sem você é um universo, primo. E sabe por quê? Porque tenho no presente e no meu peito mil-e-um lugares inabitados e o que eu conheço ainda é muito pouco. Sabem-se lá quantas galáxias habitam em nossos corações, meu amigo. Mas deixemos a metafísica. Não somos bons com ela. Conte-me do paraíso. Como é tudo aí em cima? Pode-se beber cervejas de trigo como aquelas que tomávamos nos empórios? Aguardo resposta. Lembre-se que isso é uma carta, uma correspondência, e a mesma não faz qualquer sentido se não houver resposta. Não é porque você é um anjo que devo dirigir-me a ti em forma de oração. Não é, Rafa. Falando em anjos, sabe que hoje a existência deles se tornou plausível para mim? Anjos mesmo, primo. Daqueles de cabelos loiros e olhos claros, assim como você. O que disseram aí em cima do teu histórico? O que disseram de mim? Eu que ficava sempre puto com a vida, Rafa. Eu que ficava sempre puto com teu atraso. Eu que – REPITO – ficava sempre PUTO quando perdia a chave do carro, a carteira ou o celular. Eu que agora perdi você. De nada adianta as pequenas coisas, Rafa. É tudo supérfluo. Não me importo com mais nada, que não o sangue que corre em minhas veias. O mesmo sangue teu. A muralha do meu ceticismo contrasta hoje com a esperança da vida eterna. Falo sobre a eternidade da sua vida, não da minha. Eu não teria saco, pretensão ou paciência de anjo para viver eternamente. Não rezei direito ainda. Sou gauche em orações. Preciso mesmo rezar por você? O bom senso me diz que deveria ser ao contrário. Aproveitando o ensejo, peço para que reze por mim. Reze, Rafa; porque eu preciso. Ainda lembra-se das minhas queixas, primo? A porra do meu trabalho, a mesquinhez da minha faculdade e meus amores mal-sucedidos? Breathe in the air. Vou escutar nossas músicas, quem sabe passe. Vou ouvir Pink Floyd. By the way... Gostou da música que toquei pra ti hoje? Os acordes de “Mother” acompanharam liricamente os centímetros do seu túmulo; e eu me senti vivo. Foi uma linda cerimônia, não?  Não sei como é seu tempo aí no céu. Vou me despedindo e aguardo respostas – positivas. Que você continue a ser minha luz: o abajur do meu quarto, o farol do meu barco ou o sol do meu horizonte. Um grande abraço “peteteco”. “Alu Mará” e bom futuro!
“Shine on you crazy diamond!”

Gustavo Faria.          
5 de Setembro de 2011.

Lasca

Talho o peito
Com o acaso

Uma lâmina
De pesares
Que equipara
O passado
E o presente
N’um nível
Epífano

Como um gás
Resido
Aleatoriamente
No espaço
Reticente
D’um caminho
Misantropo

Dissipo
No peito que
Tampouco pára
– mas sopra –
Sobrestando
Estático

Do outro lado

Um dia com os detentos da APAC.


- Onde mora? Te conheço de vista faz tempo. - Disse-me um rapaz nesta manhã de sexta-feira. Quando o fitei também o reconheci e justamente pela localidade interrogada; ele estava certo. Tempos atrás éramos vizinhos. Eu havia acordado cedo com o telefonema da escrivã da 2ª vara cível pedindo para que me dirigisse até o velho arquivo do Fórum. Fui, e quando dei conta, me vi no meio de uma mudança.


A cidade de Pouso Alegre/MG recentemente ganhou um novo local para o exercício dos tradicionais atos jurídicos. Após uma obra no valor de R$ 1.151.464,40, o Fórum Orvieto Butti atua desde 27 de Junho sob novas instalações. O precário – e antigo – edifício situado no centro da cidade, hoje é tombado como patrimônio histórico e até esta semana abrigava os processos arquivados. A mudança foi motivo de grande divergência na cidade. Mesmo com instalações melhores – nas quais se pode contar com elevador, copa e estacionamento – a novidade criou “razões” para que muitas pessoas torcessem o nariz. O principal motivo se deu pela distância, em virtude do – não tão longo – perímetro territorial de Pouso Alegre. O novo endereço dos atos processuais se encontra acerca de 10 a 15 minutos do centro da pequena cidade.
Ocorre que, em razão desta transição, se fez necessário que alguém movesse os processos do velho para o novo arquivo. Tal função foi atribuída a mim – estagiário – e aos detentos da APAC.


APAC é o mesmo que Associação de Proteção e Assistência aos Condenados. Enquanto projeto, acompanhado pela justiça, pode-se afirmar que tal instituição se funda em sucesso e tem total credibilidade ante os membros do judiciário pouso alegrense. Os hábitos e costumes da casa são bem diferentes daqueles vistos corriqueiramente no presídio. Os presos definem sua rotina no projeto como “suave”. Não há brigas por lá e eles se encontram passíveis de falta freqüentemente. Quando quis saber sobre as condições do presídio (outro lado da moeda), recebi um: “é foda”. A superlotação é o maior problema e a ausência de normas para regular a conduta dos detentos faz com que surja a velha guerra de todos contra todos. N’um espaço sem regras, sobrevive o mais forte. Na cadeia é assim.


O rapaz que citei no início do texto é Luan – detento que cumpre pena por meio da APAC. Ele paga cinco anos obedecendo aos ditames da lei 11.343/2006. “A casa é o nosso meio de fumar um cigarrinho e tomar cafezinho enquanto estamos na rua labutando. São três (anos) por um. Pra gente que vive preso, é a solução.” – afirma ele. Na APAC, Luan até aprendeu a fazer pão – que é vendido toda tarde a fim de sustentar o café vespertino dos funcionários. “Profissão ao sair daqui, eu já tenho.” Afirma ele, confiante.


O encargo do qual nos ocupava resumia-se em transportar as caixas de arquivo – soma de processos que não se encontram mais ativos - do segundo piso do prédio até o caminhão, por meio de uma rampa de madeira. Mil e duzentas caixas. Quantidade suficiente para gerar tempo a fim de proporcionar nova troca de experiências com os detentos. O trabalho entre nós era exatamente o mesmo: o primeiro pegava a caixa, arremessava para o segundo, e este jogava para o terceiro, que organizaria em fileiras todas elas. Ao longo do trabalho tive a oportunidade de interrogar displicentemente quase todos eles.


O segundo foi Armando – mineiro de trinta e quatro anos, com esposa e filho. Mora(va) no Chaves - bairro rural do município. Armando foi condenado a 26 anos de regime fechado. Quando pergunto o motivo da condenação, recebo dele, na ponta da língua: “157 com 121”. É mais do que certo que detento no Brasil conhece mais de lei penal do que qualquer estagiário do Direito. O artigo 157 do C.P diz respeito ao furto. Armando responde pelo respectivo crime, acrescentada a pena qualificadora do parágrafo 2º, inciso I do Código penal; resumindo: assalto a mão armada. O homem nega de pé junto que cometera tal ato. Naquele tempo, a delegacia de Brasília recebera uma denúncia anônima na qual seu nome se encontrava. Um ônibus que vinha do Paraguai havia sido saqueado por bandidos armados; o mentor seria ele. Armando – já adulto – assumiu a relação com tal gangue, mas negou a prática do ato infracional. Disse que não foi reconhecido pelas pessoas que assinaram a lista de testemunhas. Não duvidei após ter aprendido que um detento não mente quando não possui mais nada a perder. O outro artigo de Armando foi o 121: homicídio. Quando perguntei o porquê do crime ele se politizou. “Assumi”, disse ele – e mais nada. Talvez tivesse sido um justo motivo.


Cheguei a conversar – ainda que distraidamente – com vários outros presos. A razão da reclusão era quase sempre a mesma: tráfico de drogas. Da marcha legalize vários motivos provém. Hoje a droga é um problema de segurança, enquanto deveria ocupar o cenário da saúde; tendo em vista que um problema de saúde é muito mais fácil de ser combatido pelo governo, pois não depende de bandidos, contando apenas com o bom senso da nossa – nada efetiva – política brasileira. De tão lembrado, tal argumento passou a clichê, mas não à mentira.

Enquanto descarregava, ao lado de meus atípicos colegas, o caminhão cheio de caixas ocupadas por mil-e-um processos correspondentes a conflitos da vida familiar, ouvi de Luan: “Daqui eu vejo minha casa, é logo ali. Fico tão puto. Tão perto e tão longe. Corro contra minhas pernas. Um e oito (anos), e já era.”

Oito horas de trabalho braçal e organizamos o arquivo da 2ª vara cível. Mil e duzentas caixas contendo dezenas de milhares de processos. Milhares vidas que se vão. Volto do Fórum pensativo. Recebi mais respeito dos detentos, do que dos advogados com quem convivo diariamente. Dividi coca-cola, gíria e espaço. Pela vida ou pela morte, por ódio ou por amor: errar é humano.

O homem down

N’um primeiro momento não conseguiu abrir os olhos – não sei se por inércia do sono ou pela remela concentrada na extremidade dos cílios. A boca carregava um amargo ressecado que o remetia a qualquer uma das doses que tragava repetidamente horas antes de dormir – Campari, talvez. Quando enfim constatou que ainda enxergava teve o impulso do despertar limitado por uma dor que subia da nuca até a cabeça. Não demorou para que o desconforto amanhecido fizesse com que carregasse o peso de todas as atitudes (des)cometidas que – supostamente – cometera; e digo “supostamente”, com tanto tino, pois não haveria neste mundo viv’alma que pudesse lembrar dos fatos passados em tais circunstâncias noturnas. O esquecimento é o pai do arrependimento. Foi do quarto ao banheiro sem sequer saber que horas eram; apenas com a esperança de que, quem sabe, tivesse acordado em outro corpo, outro plano. Falha. O espelho do banheiro lhe cuspia um reflexo de quem já muito fez e pouco aprendeu. O espelho é uma verdade inconveniente - tal como fotografia ou parente distante. Domingo. Em domingos de manhã só existem dois tipos de pessoas: aquelas que vão à missa e aquelas que não despertam. Concluiu que, pelo horário, ao mesmo tempo em que se olhava, qualquer gente daquela primeira classe de pessoas (lato sensu) estaria em cantos eucarísticos pedindo pela salvação de suas almas – ou da dele. Colocou qualquer roupa que suprisse o trajeto caseiro. Na cozinha, tentou água e coca. A água parecia clorada e a coca (cola) tinha gosto de rum. Na cabeça, tinha um pêndulo que lhe atrasava os sentidos de tal modo que não (ou)via muito bem qualquer som oportuno que fosse. Na sala, tentou televisão; e na TV não havia o que tentar. Caminhou até a varanda e de súbito teve a certeza de que não existe nesta vida habitat ideal para um pós-bêbado. Introspecção. A ressaca proporcionava-lhe a chance de filosofar sobre seus dias. Digo isto pois, o ofício de pensar não nos cabe na rotina, aparecendo apenas nesses dias em que tudo é nada. Tinha na barriga qualquer coisa que balançasse o que carregava por dentro dela. Um arroto quase jogou pra fora o pouco que tinha consigo. Tentou lembrar – em vão – do que pudesse ter ocorrido na madrugada anterior. Os ambientes não tinham cor, a música era uma só e qualquer mulher que fosse usava batom vermelho. Qualquer mulher. Nada (em) forma. Fora para a noite por não ter nada a perder - no dia. Voltou para o banheiro; quem sabe o espelho falasse. Do que conseguiu lembrar, não gostou. Foi o suficiente para que sua barriga cuspisse pra fora todo o pouco suprimento que tinha. Ajoelhou em frente ao vaso e deixou que o jato amargo refrescasse sua memória. Concluiu que, pelo horário, ao mesmo tempo, as pessoas que iam à missa devessem estar também ajoelhadas e dificilmente pediam tanto por salvação quanto o pobre impotente. “O banheiro é a igreja de todos os bêbados”, dizia a música. Ajoelhadas, as pessoas não mais se dividiam. Amores mal-sucedidos, amizades esquecidas e falta de dinheiro. Não havia outro remédio. “Que atire a primeira pedra”, cuspiu ele um pouco rouco.

Até o fim

Do alto do meu ócio
Brasileiro e preguiçoso
Procrastino o afazer
Do amanhã ao feriado

Regado a sauvignon
Cantando din don don
Caminho pela calle
Feito um gauche bon vivant.

Un coche em Chacabuco
Uma dose na Augusta
Rumo à Copacabana
Coisa que muito me gusta

Paro hoje em cada esquina
Diante de toda vista
Meu futuro é reticente
Meu presente amanheceu

Deus sabe o quanto andei
Na fartura do pecado
Pois bato no peito e digo

- Como é bom viver errado.

Noite adentro

Da varanda do oitavo andar reparo que lá embaixo um porteiro ensaia suas próprias conclusões sob a sombra desta indiferente madrugada de outono. Não que me falte assunto para escrever, mas agora este porteiro é o que me fita de mais humano em minha frente – ainda que em minha frente eu possa ver centenas de telhados, transeuntes e antenas também indiferentes e também sob a mesma madrugada de outono. Ocorre que Severino – sabe-se lá se lhe é este mesmo o nome dado de nascença, mas lhe cabe bem em razão da função – pois, acontece que, este Severino ali embaixo se passa tão despercebido pelos pára-brisas e cortinas que lhe atravessam que sua personalidade daqui já não se fundamenta em outra coisa, senão no bom senso de quem um dia já desprezou ou provou de algum desdenho. Percebe-se que sua rotina não se baseia em outra coisa que não em feições providas de caridades e insatisfações.

Vejo que ele cruza as pernas e encosta-se à coluna do muro – atitude de quem pensa, pois não lhe cabe agora outro ofício em razão das condições de tempo e espaço – e assim, não lhe cabendo mais nada no momento além de vigiar sua pobre alma, filosofa sobre o prazer de haver sido. O momento de introspecção de Severino registra sua vingança frente à indiferença de quem vive no posto da cabine insufilmada de um edifício urbano.

Enquanto termino daqui de cima meu preguiçoso copo d’água noto que Severino também carrega uma bebida em mãos. Os mais distraídos diriam que ele agora poderia estar bebendo qualquer coisa, mas o raciocínio lógico a que o ócio me submete sugere que Severino está bebendo café. Pois, se existe nesse mundo algo sugestivo para um vigia – e filósofo – carregar em mãos numa madrugada silenciosa, cotidiana e sem novidades, é uma boa dose de cafeína.

Percebo que nosso humilde porteiro cruza agora os braços e sai em passos lentos no perímetro do portão. É bem certo que não possui ao alcance outra arma que não seja o interfone – o que atribui ao nosso personagem um tino – até – de corajoso. Mas voltemos ao prazer de haver sido (pois não me resta agora outros traços cabíveis ao caráter deste empregado padrão e as descrições pessoais aqui se encontram um tanto extensas).

Na companhia de uivos perdidos pensa ele agora – o que haveria de ter sido? – E penso eu: há sempre um dia em que somos obrigados a indagar o progresso. E então pensa ele agora que trabalha com portões dia e noite esperando o instante de vencer o humor do síndico. Pensa ele agora que abre e fecha garagens aguardando a recompensa da maleta encontrada cheia de títulos e notas que pertencia ao empresário da cobertura. Pensa ele agora que carrega o fardo de ter hábitos forçados em benefício de sono alheio. Pensa ele agora sem raciocinar.
_____________________

Uma luz que se apagou no prédio da frente fez com que eu desviasse o olhar e perdesse Severino de vista. Atentei-me para a cabine escura da portaria e não enxerguei seu vulto. Percorri o olhar sobre os blocos do condomínio e segui sem notícias de nosso vigilante noturno.

Sento na poltrona da varanda, abro um livro e leio: “Outra vida, da cidade que anoitece. Outra alma a de quem olha a noite. Sigo incerto e alegórico. Sou como uma história que alguém houvesse contado.”

Que tenho eu com a vida?


O homem que marcava passos

Acordou com o pé direito - não em razão de alguma sorte ou bom humor inerente a todos os varões de vinte anos - acordou com o pé direito porque lhe fazia bem a simetria do ato. Foi ao banheiro, conferiu a posição dos frascos de perfume bem como da saboneteira, (re)posicionando os rótulos de modo que ficassem de costas para o espelho. Lavou o rosto abrindo a torneira direita da pia com cinco voltas ritimadas. Secou a face percorrendo o papel toalha da testa ao queixo. Foi até a cozinha em passos ímpares e fez o café das cinco xícaras. Esperara a água ferver escutando o som do rádio após arredondar o volume no display para a dezena mais próxima. Preparou torradas - cinco. Amanteigou-as de forma que anivelasse a superfície da manteiga. Odiava quem fazia crateras no alimento como se fosse a última coisa do último café do último minuto de uma vida. Quando o relógio marcou sete, saiu de casa conferindo três vezes a fechadura - não confiava em portas nem em vizinhos. No ponto de ônibus atentava-se à olheira da enfermeira e ao catarro do moleque que perguntava ao operário se a linha Industrial já havia passado. Subiu no coletivo pelo lado direito e pagou a quantia trocada ao cobrador. Não sentou. Preocupava-o a lotação e a falta de ar, de autonomia e de vida de todas aquelas pessoas que suavam em pleno turno matutino. Não era um deles (?). Desceu um ponto antes para não precisar dividir a divisória direita da porta do veículo. Gostava de caminhar pela manhã reparando nas olheiras das calçadas e nos passos largos dos funcionários uniformizados. Confortava-lhe caminhar no centro - exceto pelas ciganas. Odiava ciganas. Filosofava sobre a vida embaixo daqueles acampamentos sem banheiro e acreditava que receberia uma praga flamenca caso oferecesse a mão para alguma daquelas perdidas. Não tinha pena das crianças sujas de colo. Odiava Ciganas. Conferiu a hora no relógio de pulso para que chegasse a tempo no estudo sem precisar dos cinco minutos de tolerância tão cultivados no cotidiano rotineiro de brasileiro. Não era um deles (?). Talvez realmente não fosse. Sentia pena da mediocridade daqueles que atribuíam todos os problemas da vida a um espaço encontrado entre o intervalo de "ter" e "ser". Pensava: "As pessoas que são, acreditam que sendo, tudo estará resolvido". Arre! Talvez tivesse razão. Existem verbos mais interessantes para se obedecer - como o próprio verbo obedecer. Ou talvez obedecesse a tantos rituais simplesmente para provar a (des)necessidade de obedecer a qualquer coisa. Era um hedonista. Apenas isso. Lembrou-se da última transa e de como sempre tirava o sutiã da amante antes da calcinha, calculando para que fosse um número ímpar a última penetração na genitália feminina.  Agradava-lhe a quantidade do som, a manteiga nivelada e os passos simétricos. Sentia prazer na medida dos atos em meio à sua rotina. Talvez não fosse um transtorno e sim uma solução. Uma solução para a demagogia dos discursos dos colegas de trabalho, dos almoços de domingo e dos padres da paróquia.

Às exatas vinte e duas horas dormiu e sonhou.

O conto da descabida

Foi até a cozinha, olhou pela janela e concluiu que em mais ou menos tempo ia chover. Nublou-se de outras conclusões abafadas pela necessidade de tirar as roupas do varal antes que o dilúvio imaginário molhasse todos os seus afazeres de coroa do interior. O quintal era seu escritório de dona de casa, seu marca ponto rotineiro. Passara dos quarenta com casa, filho, marido e cabelo curto. As dezoito horas do relógio remetiam-na ao estudo do moleque, ao atraso do marido e aos desfalques de seu tempo. Saiu da cozinha odiando o quintal, o esposo e o varal. As varizes distanciavam suas pernas dos lençóis molhados de fora. Esqueceu das obrigações diárias de esposa quando passou pelo espelho da sala. Em meio ao seu reflexo e às gotas de suor concluiu que o padrão não é mérito nenhum pra quem vê a vida de fora. Rugas de insegurança ao lado de contas não pagas, menstruações atrasadas e louças não lavadas. Adiou vitrines, pileques e sextas-feiras. Tantos atrasos por tão pouca bobagem.  "Antes fosse puta" - pensou ela. Antes fosse puta.

Da mudança

Tempo de mudança é quando o conforto dos velhos cômodos dá lugar ao tédio. Sei que meu status de ocioso não me dá créditos para conclusões do tipo, mas essa casa já teve lá sua graça. Posso me lembrar de como foi dinâmica durante a minha infância. Recordo-me de como era prazeroso descobrir uma gaveta de fotografias em preto e branco, uma porta falsa com vinis ou revistas antigas no alto do guarda roupa à medida que os anos me concediam os generosos centímetros. Mas as paredes da minha casa não (mais) falam. Ainda que todas as paredes falassem – repito – ainda que todas as paredes feitas de tijolo, cimento e massa corrida pudessem falar – as da minha casa continuariam (hoje) mudas.

Não há mais no meu quarto o suspense dos espíritos dentre os cabides, tampouco os mistérios inerentes aos olhares dos porta-retratos; e o velho criado-mudo de madeira maciça do interior – que há tanto tempo sustentou sobre si as palavras inquietas dos romances que ali ficavam – sustenta hoje apenas mil e duzentos gramas de papel impresso nos livros de cabeceira. Hoje minha cama é uma cama; não mais um abrigo.

Os anos não são generosos com o encantamento humano. Enjoamo-nos com facilidade das pessoas, dos lugares, e a distância se faz necessária para que ocorra um (re)encontro espirituoso.

Tempo de mudança é quando o conforto dá lugar ao tédio. Vou me mudar.


    

Sobre o teu Origami

Hoje vou personificar papéis. Não os papéis que incorporamos nas cenas de mãos dadas,  nas peças de discussão ou nos monólogos de desabafo; já não somos mais personagens. 

Falo dos papéis dobráveis; do sulfite ao couché. Porque olhando pra eles, lembro de mim. Lembro de como fui (des)dobrado em metade. 

Mas voltemos aos papéis. Repare que nunca nos damos por satisfeitos quando os dobramos apenas uma vez; apenas em duas partes, apenas iguais. E então dobramos de novo, buscando facilitar o manuseio ou criar alguma figura sugerida pelo ócio. 

Ocorre que (assim) você me dobrou e antes que eu percebesse meu status de metade, você amassou a ponta esquerda e dobrou (de novo) minha situação. Dobrou a ausência em carência, a razão em paixão e dobrou em dúvida o que eu tinha de certeza. Nada pensado. Era confortante medir  os nossos lados & amassar com os dedos os motivos e (contra)tempos.
____

Num repente, acordei marcado.

Me desdobrei antes que rasgasse.





(à)vontade

Ando bem. E não é porque consegui não exigir justificativas p'ro teu silêncio mal falado em meio ao eco das minhas respostas; eu já não existo mais. Ando leve. E não é porque trocarei hoje o café filtrado de saudade, pela cerveja brindada e graduada por goles ácidos de motivos; eu já não existo mais. Ando certo. E não é porque quis hoje coerência sobre significados de início e fim enquanto dialogávamos sobre o meio; eu já não existo mais. Ando dormindo. E não é por ter sido hoje acordado pela chuva que conseguiu apagar o que havia de rastro & cansaço & conquista; eu já não existo mais. Ando livre. E não é por ter conseguido superar o sentido de existência quando ouvi seu 'não' bem_dito, que de grito, acordou minha razão; eu já não existo mais.

Ando assim (só) porque hoje choveu quando estive com você e, quando (em tempo) já não estava mais ao seu lado, o sol apareceu.

Ando novo, e isso é bom.

(des)vontade

Não ando bem. E não é pelo refrão da musica-tema que tocou alto hoje no meu ouvido remetendo sentimentos triviais de semanas atrás; você já não existe mais. Não ando calmo. E não é pela sua foto que acabo de ver encenando teu cheiro de nuca & cabelo de fim de tarde; você já não existe mais. Não ando leve. E não é pelas mensagens que ainda guardo cuspindo a saudade do sossego depois de beijo & abraço diário; você já não existe mais. Não ando certo. E não é por causa dos devaneios de hoje que ainda repetem distraidamente as mesmas figuras de quatro semanas passadas; você já não existe mais. Não ando dormindo. E não é pelo 'não' mal __ dito que veio no lugar do 'sim'; você já não existe mais.

Ando assim (só) porque as palavras que tão contando uma estória de dois, em vez de sairem, como de costume, num romance encadernado de folhas amarelas, tão aqui rindo de lado em forma de crônica.

Longe

O tamanho da distância
ou a força da ausência
no amor, leva saudade
na paixão, abstinência.

__

Da(qui)

Não deixo na mão do tempo
que ele sempre levou tudo
e de sempre, levou tanto

que de noite nem eu sei
se me deito ou me levanto.

Até queria,

abrir o cadeado
cuspir tudo o que eu penso
num discurso de um só trago.
____________

Por excesso
de bom senso
te poupo do estrago.

Do nada

De repente, qualquer coisa que eu poderia escrever foi dita antes por você. Pulamos no rio, nadamos até a mesma margem e você chegou primeiro. E de repente, me senti bem com isso; não com essa coisa de chegar em segundo, mas de ter você na minha frente.


.

Da atitude

Eu vou com a calma
Que não é natural da idade
É bem mania da alma
Confundir atitude com ansiedade.

Do presente

Me perco na rotina. Cinco sentidos não bastam e a sinestesia não é para todos. Tenho a mania de tomar para mim toda indireta que aparece pela frente quando algo não está claro. Como quem coleta pistas pra entender o passado ou descobrir o futuro. Como se não houvesse verso de amor, frase de liberdade ou música de saudade que não fosse feita especialmente para (re)afirmar a (in)certeza do tempo de agora. E hoje não há estrofe do Pessoa ou conclusão da Clarice que não tenha sido escrita por mim.

Amor, liberdade e certeza; a vida se apega às coisas das quais ela menos dispõe no momento.  Minha fonte de certeza é o ponteiro do relógio e meu futuro ainda não saiu do calendário. O resto, não passa de possibilidades. Atribuo possibilidades às esquinas e aos gestos. Tenho dez verbos pra cada palavra sua e vou morrer sem saber em qual deles morou o beijo. Tenho dez cores pra cada humor seu e vou morrer sem entender se é melhor te ver roxa ou verde malaquita.  Crer na possibilidade é apostar na felicidade com um bilhete a mais na mão.

O meu presente é duvidoso; tem as aspas do passado e as reticências do futuro.

Do silêncio

O silêncio é a malícia que não foi compartilhada. É o vácuo do diálogo. Quem não fala esconde; quem esconde, entende; quem entende, não atende. Meu silêncio não basta. Não deveria bastar; pra ninguém! Aceitar o silêncio é inocência. Partilhar dele é corvardia. Um pensamento não compartilhado acumula mais palavras que um discurso. A maior prova da injustiça desse fôlego economizado é que nenhuma resposta é válida se não for dita. O silêncio é a preguiça da fala.

Ando quieto demais, fiquei com remorso e precisei escrever.

Do lado de dentro

Meu peito é oco. Tenho o costume de andar com o coração na boca. Por isso nunca tenho palavras. Posso, no máximo, emprestá-las de você. Todas as palavras são suas e eu só pronuncio. Nunca em voz alta pois o amor tem o sono leve; ele não dorme, só sonha.

-

À procura do coração,
A razão bateu na porta do peito.
O coração não estava, pois subiu pra boca.
Então, a razão também subiu
Mas na boca não havia espaço pra ela.
A razão quis entrar, gritou alto.
O amor acordou,
O coração saiu.

E então discutiram e brigaram.

A boca, que já não sabia mais o que dizer, também brigou, pois haviam roubado suas palavras
Acabaram acusando o amor de tal crime.
Ele se defendeu - dizendo:
- As palavras saíram todas abraçadas, umas com as outras, em forma de estrofes.

Saíram todos à procura das palavras

Mas no meio do caminho,
O amor  voltou a sonhar,
O coração voltou pra boca
E a razão se perdeu.


.

Feira livre

Tem gente perguntando o preço
Tem gente escolhendo por mim
Tem gente indo e vindo
E não vejo propósito em cada pessoa que anda e esbarra e compra e manda

É de manhã; é todo dia de manhã
"(o ar não circulou; se circulou, foi só pra esfriar)"

Caí no corredor Direito.
Ainda há tempo de ser astronauta?

Costuro indiferença.
Troco tempo por ócio,
Vendo minh'ansiedade,



Cada gesto, uma desordem.
Tem gente perguntando o preço,
Tem gente escolhendo por mim,
Tem gente indo e vindo.

Minha vida é uma feira.
(sem barraquinha de pastel)

Do cumprimento

Nunca encontro palavras p'ra parabenizar quem eu realmente gosto quando preciso. Não é timidez; o tímido não declara nada. Eu declaro, porém tropeçando. Minha indiferença à efusividade não permite tal gesto. A voz se prende, o abraço é curto e tenho a sensação de que não conseguirei falar nada que não tenha sido dito antes. 

Minha admiração é cliché. Incrível como consigo gritar o ódio, humilhar (em voz alta) a indiferença e ter palavrão pra tudo o que é objeto. Mas o amor, só sai escrito. O amor não se grita; se sussurra. 

O cumprimento não corresponde ao sentimento.

Sobre Junho

Em mês de dia frio
minh'alma
       se    parte
       em    duas
mascarando companhia
pra tapear o tempo.



Em mês de dia frio
O destino se desculpa com mitoses.

Tropeço

"De repente do riso fez-se o pranto"
de repente o choro esgotou o canto
de quem cantava a boemia
sem saber se amou um dia.


E hão de gritar bipolaridade!
do sujeito que, de tarde,
com a ânsia de quem arde,
deu a noite por saudade.


"De repente, não mais que de repente",
com a pena de quem mente,
olharão para o sujeito
a repousar, só, em seu leito.


E hão de gritar vadiagem!
do boêmio que, de samba,
fez da vida corda bamba.

Deste hino

Coincidência me faz
crer em destino,

como um amigo imaginário
que nos diz o que fazer


e em quem colocamos a culpa
dos pecados 
indesejáveis.


Se há destino em nossas vidas,
há livre-arbítrio nas marionetes.

 "O destino escreve rápido e esconde a folha."

À noite

A insônia é o intervalo do descanso.

Meu partido

Meu partido se veste de Augusta
e dança ao som de "Light my Fire"
embriagado do que é vil
com um olhar quarenta e pouco

Meu partido aproveita da incerteza
e como um cego vê a beleza
da puta que pariu.

Meu partido tem:
a nitidez de um absurdo,
a lucidez de um viciado
e a malícia de um propósito.

Meu
partido
me
partiu.

Esquina

Porque tudo me encara
e nada me explica.

Entrelinhas não me fazem bem.

Se a verdade é injusta,
minha dedução é ácida.

Talvez isso explique
a disparidade dos meus sentimentos
e o (in)conformismo das minhas conclusões.

[Exercício - GRAMÁTICA]

- Faça a análise morfológica das palavras na oração abaixo:

. "O sujeito morreu de amor."



Por falta de complemento
O núcleo do sujeito
Morreu como um objeto.

Indefinido, Pre(ju)dicado,
Sem ninguém adjunto,
Não houve oração
Que salvasse sua conjunção.

Pobre do sujeito
Noticiaram com seu feito
Num artigo de jornal
Que o verbo amar também faz mal.
 ____

Mas que falta faz 
um verbo 
de ligação.

Da escolha dos romances

Não adianta comédia
Se rir sozinho não convence.
Se for pra fazer média,
O tempo ali fora nos vence.

Palavra

O conselho é a fantasia da opinião.

Do amor e o engano

Amar é desviar-se do tempo; como quem se perde (erroneamente) em devaneios nos minutos finais de aula teórica pensando-se estar no plural.
Mal sabe quem ama que o presente é singular.
Mal sabe quem ama que amar é se enganar.

d.i.l.e.m.a

Entre o antes
E o outrora
Ou quando der saudade
Há sempre necessidade

De escrever
Qualquer versinho
Com metáfora
Ou Clichê

Prá mostrar a você
Que um recado
Não precisa ser falado
Prá ser de fato dado

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Mas sou órfão de palavras
A letra é solta e a frase é presa
E os versos tratam as rimas
Como imigrantes
Pois elas não dizem nada
Que não tivesse
Sido dito antes

-------------

E então penso que hoje em dia
Não é fácil fazer poesia
Quando a mulher
Não é simples Maria

Contrária

O que seria da poesia
Se não fosse escrita
Por alguém que
No amor se contraria?



"E eu descobri que não são os amores felizes que mexem o mundo, mas sim, os contrariados."
Gabriel García Márquez

Gravidade

Soprou por fim o ar
Que no frio se mistura
Em ansiedade e textura
Com a fumaça do vigésimo cigarro
Que tragava naquela noite

E a neve noturna que endurecia
Em negritude o ambiente
Cobria então os indícios
De um mistério de certezas

Olhou pois, para o alto
E indagou se a inexistência
Da gravidade
Faria com que não houvesse neve
Nem fumaça
Nem indícios

Pois nem tudo que cai
Se levanta

Como meses

E você caminhando como Dezembro
Não diz não pra sexta-feira
Nem pra beijo nem pra abraço.
Faz promessas pra um futuro mais incerto
Que o verde ali de fora.
Se Dezembro falasse, mentiria.

E eu vou caminhando como Julho
Tenso, esperançoso, mas sensato.
Não creio no teu êxtase de quem entrou de férias
Ou teve a senha sorteada.
Meus dias são contados.
O Papai Noel do Shopping não esconde minha ressaca
Depois da ceia e do cigarro comedido.

E como calendário
Nossa essência é sempre a mesma.
O formato é sempre o mesmo.
Só muda o necessário.

E como calendário
Dependemos dos dias
Pra dar sequência nesse plano
Mais incerto que o verde ali de fora.

Se eu fosse fim de ano, não esperava carnaval no litoral.
Se eu fosse fim de ano, não esperava por uma tragada a menos.
Se eu fosse fim de ano, meu elogio sairia da boca pra dentro.
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